Por Jason Schukraft (EA Forum)
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Como sentem os animais? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Clay Banks e Mackenzie Cruz)
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Preâmbulo
As diferenças na intensidade da valência experienciada pelas várias espécies podem afectar a proporção de recursos que devemos destinar à ajuda a diferentes tipos de animais. Recentemente escrevi um longo relatório sobre este tópico. (Pode ver um PDF do relatório aqui.[1]) Neste resumo, tento transmitir de forma mais sucinta as minhas principais conclusões.
Texto principal
Todos sabemos que a sensação de algumas experiências é boa, enquanto a de outras é má. No jargão técnico, podemos dizer que as experiências assumem frequentemente uma valência: uma sensação geral positiva ou negativa. Sabemos também que a sensação de algumas experiências boas é melhor do que a de outras, e que a sensação de algumas experiências más é pior do que a de outras. Podemos chamar a estes graus a intensidade de uma experiência.
As vidas humanas têm uma enorme variedade de valências experienciadas de intensidades variáveis. A diferença entre a experiência mais positiva de uma pessoa e a experiência mais negativa é a gama da percepção de intensidade da valência experienciada por essa pessoa. Mas alguns indivíduos percepcionam gamas de intensidade mais amplas do que outros. Alargando o ponto de vista, podemos descrever a gama de intensidade característica de um ser humano representativo.
Existem diferenças nas gamas de intensidade características da valência experienciada pelas várias espécies? Esta pergunta é importante porque a sua resposta poderia afectar a forma como desejamos gastar os nossos escassos recursos a ajudar diferentes tipos de animais, incluindo os humanos. Por exemplo, se as dores e prazeres da truta e do salmão são apenas pálidos reflexos das dores e prazeres das vacas e dos porcos, então em muitos casos podemos ser capazes de fazer um bem maior ao ajudar os mamíferos em vez dos peixes.
Identifiquei uma abordagem em três fases para resolver esta questão:
- Começar com a biologia evolutiva teórica. Reflectir sobre a função evolutiva da valência experienciada poderia ajudar-nos a discernir limites aproximados sobre como poderia ser a gama de intensidade de uma espécie.
- Em seguida, pensar em como os traços cognitivos e emocionais contribuem para a intensidade da valência experienciada. Se conseguirmos perceber o papel que a cognição e a emoção desempenham, então poderemos ser capazes de utilizar as diferenças nas capacidades cognitivas e emocionais como guias aproximados para as diferenças na gama de intensidade.
- Finalmente, examinar os potenciais marcadores neurobiológicos, comportamentais e fisiológicos da intensidade da valência experienciada. Os investigadores trabalham há décadas para validar métricas objectivas de intensidade da dor nos seres humanos. Se formos bem sucedidos, talvez possamos alargar estas métricas a animais não humanos, proporcionando assim uma oportunidade de medir directamente a intensidade da valência experienciada.
Os meus resultados estão cheios de incertezas. Examinei centenas de estudos e trabalhos, mas tive dificuldade em reunir uma visão coerente do estado do nosso conhecimento. Por vezes, senti que precisava de ser um especialista em meia dúzia de disciplinas distintas apenas para dar sentido a todos os dados que tinha recolhido. No final, cheguei a um punhado de conclusões provisórias, duas das quais podem ser relevantes para a forma como atribuímos recursos a intervenções dirigidas a diferentes tipos de animais.
A máquina neurobiológica que controla a sensibilidade humana à dor e ao prazer, bem como as nossas respostas emocionais básicas, é evolutivamente antiga, e por isso provavelmente se conserva em todos os mamíferos. De uma perspectiva comportamental, fisiológica e neurológica, não há nada de exclusivamente humano nas dores e prazeres corporais. O mais surpreendente é que da mesma perspectiva comportamental, fisiológica e neurológica, não parece haver nada de exclusivamente humano nas nossas respostas emocionais básicas. Outros mamíferos provavelmente sentem medo, raiva, ansiedade e tristeza. As emoções positivas parecem igualmente difundidas, com análogos bastante robustos de amor (materno) e mesmo de amizade aparentemente comuns entre os mamíferos. Quando o comportamento relevante é semelhante, as mudanças fisiológicas associadas ao comportamento são semelhantes, e a neurobiologia que presumivelmente rege o comportamento é semelhante, a conclusão mais razoável é que a vida emocional dos mamíferos não humanos é, na maioria dos aspectos, aproximadamente tão intensa como a vida emocional dos seres humanos.
Embora seja plausível que existam grandes diferenças de intensidade entre espécies, duvido que existam animais com a capacidade de valência experienciada cuja gama de intensidade apenas oscile tão perto da neutralidade que não mereça a nossa consideração moral.
Por vezes as pessoas sugerem que mesmo que os insectos ou os crustáceos sejam sencientes, estes animais não merecem muita atenção moral porque mesmo as suas dores e prazeres mais intensos são tão ténues que dificilmente se notam. A minha investigação sugere que actualmente existem poucas provas que sustentem esta afirmação e que existem pelo menos razões provisórias para a rejeitar. Para começar, não estamos em posição de excluir conclusivamente a possibilidade de os insectos e crustáceos terem experiências caracteristicamente mais intensas do que alvos mais típicos da nossa consideração moral, tais como porcos ou galinhas. Mais concretamente, a ideia de que as experiências de alguns animais nunca se elevam acima da mais pálida pista de um sentimento fica em tensão com a nossa melhor compreensão do papel evolutivo da valência experienciada. Uma das funções mais importantes das dores e dos prazeres é encorajar os animais a adoptar comportamentos de melhoria da sua aptidão e desencorajar os animais de se envolverem em comportamentos de redução da sua aptidão. A sensação boa ou má de uma acção proporciona uma motivação vital que diz a um animal como se comportar. Em condições normais, a força motivacional geralmente apresenta uma co-variação de acordo com a intensidade da sensação boa ou má. Mas, por definição, experiências extraordinariamente suaves sentem-se de forma quase indistinguível face a experiências neutras. Experiências subjetivas tão ténues a ponto de mal se registarem, provavelmente fariam um péssimo trabalho na motivação de um animal.
Evidentemente, esta é uma questão complicada, e há respostas ao argumento acima que vale a pena considerar. É certamente possível que os insectos e os crustáceos tenham experiências caracteristicamente menos intensas do que, digamos, os porcos e as galinhas. No entanto, qualquer pessoa que conceda que os insectos e os crustáceos são sencientes, mas negue que merecem atenção pelo facto de as suas experiências serem tão ténues, deve-nos uma história evolutiva sobre a ligação entre a intensidade e a motivação.
Porquê ler o relatório completo?
Se ler o relatório na íntegra, descobrirá as razões pelas quais acredito que a sofisticação cognitiva é um mau indicador da gama de intensidade, porque razão estou entusiasmado ao examinar as oscilações neurais em animais não humanos, e que questões acho que vale a pena investigar mais. E, no caso de aprofundar na análise às 123 notas de rodapé, será recompensado com um conhecimento superficial de ideias interessantes, incluindo a alegação de que os seres humanos podem ter os melhores orgasmos (tanto masculinos como femininos) no reino animal e a alegação de que o parto humano pode ser tão doloroso, não por causa das nossas grandes cabeças (os saguis têm, na verdade, uma maior desproporção da cabeça face ao pélvis), mas porque os gritos dolorosos suscitam a assistência de outros seres humanos.
Esta área de investigação é reconhecidamente bastante especulativa, e lamento que, devido a uma confluência de complexidade, não tenha sido capaz de fornecer uma descrição mais quantitativa das minhas convicções relativamente a várias proposições. No entanto, se queremos realmente comparar intervenções que visam diferentes espécies, temos inevitavelmente de enfrentar questões difíceis. Espero ter dado um primeiro passo para ajudar a mapear o território que teremos de atravessar se quisermos ter a certeza de que estamos a distribuir os recursos pelas várias espécies de forma eficiente.
Créditos

Esta investigação é um projecto da Rethink Priorities. Foi escrita por Jason Schukraft. Agradeço a Michael Aird, Janique Behman, Kim Cuddington, Marcus Davis e Derek Foster por um feedback útil relativamente a rascunhos anteriores. Se gostar do nosso trabalho, por favor considere subscrever o nosso boletim informativo. Pode ver mais do nosso trabalho aqui.
Notas
- PDF cortesia de Carly Kemp. ︎
Publicado originalmente por Jason Schukraft no EA Forum, a 11 de Novembro de 2020.
Traduzido por Rosa Costa e José Oliveira.
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