Por Michel Justen (EA Forum)

Estou a trabalhar para escrever mais, mais rapidamente e não directamente para um público do Fórum AE. Este é um post copiado do meu blogue.
Pergunto-me o que estará a fazer hoje a criança cuja vida salvei. Talvez a brincar com os amigos no pátio da escola, talvez a passar tempo com a sua avó, ou talvez apenas a jogar à bola, sozinha.
Seja o que for que esteja a fazer hoje, um dia vai crescer e vai viver. Terá um primeiro beijo, uma dança favorita, um passatempo que a faz sentir-se livre, alguém como modelo para admirar, uma pessoa melhor amiga… tudo isso. Irá viver. E acho que será por causa daquilo que fiz hoje.
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Não é algo sensacional nem aventureiro, salvar uma vida no século XXI. Abri o meu computador portátil, fui a um site nos favoritos e fiz um donativo a uma instituição de caridade que destacavam. Não se poderia culpar alguém que me observasse por assumir que eu não estava a fazer algo de muito importante, talvez a responder a algumas mensagens sobre os planos para esta noite. Todo o processo (a parte do donativo, depois de se verificar aquilo que realmente se valoriza) demorou provavelmente menos de 5 minutos.
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O que é que eu fiz para ter este poder? Nada. Num sentido relevante, penso que não fiz nada para poder salvar uma vida sem me levantar do meu sofá. (Certamente não fiz nada para “merecer” este poder). Apenas ganhei a lotaria do nascimento. Nasci numa família de classe média-alta, nasci no caminho certo para ter uma boa educação e – sem mais nem menos – nasci para me tornar uma das pessoas mais ricas do mundo.[1]
Não fiz nada de extraordinário para ganhar um pouco mais do que o rendimento médio dos EUA, mas aqui estou eu a tomar decisões sobre a vida ou a morte de alguém.
Só gostava que não fosse tão fácil. Os cinco mil dólares que doei hoje não são uma quantia trivial,[2] mas é muito mais trivial do que uma vida humana. A economia moderna da abundância deveria ter garantido que me custasse mais do que um carro novo (de que não preciso) para fazer a diferença entre uma criança morrer antes do seu quinto aniversário e essa criança conhecer os seus netos. No entanto, aqui estou eu, sentado no meu sofá, amparando uma vida que não consigo ver – mas que existe como muito mais do que uma abstracção – nas minhas mãos.
Por favor, penso eu, enquanto passo por pessoas com carros e relógios caros e imagino uma menina a festejar o seu aniversário, por favor, não digas a ti mesmo que o mereces.
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Ah, e quanto ao tabu de não falar sobre donativos: que se lixe. Imaginem que ao partilhar aquilo que sinto em relação aos donativos pudesse inspirar pelo menos uma outra pessoa a juntar-se ao projecto de dar aquilo que podemos, mas que fiquei calado por recear parecer presunçoso ou egocêntrico. Preocupo-me muito mais com o egocentrismo que estaria a expressar nesse silêncio.[3]
1. Não sou assim muito diferente das pessoas que penso que vão ler este post. Veja como se compara com o resto do mundo aqui. ^
2. Será que 5000 dólares parece muito? Descubra por que razão os anúncios do Instagram que lhe dizem que pode salvar uma vida por menos não estão a dizer toda a verdade. ^
3. Se alguém alguma vez me salvar a vida, a primeira coisa que vou perguntar é se “o fez pelas razões certas”. ^
Publicado originalmente por Michel Justen no EA Forum, a 7 de Agosto de 2023.
Traduzido por José Oliveira.
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