A Economia da Moralidade

Imagine-se em férias em um país em desenvolvimento, em uma colina com vista para o mar. Um dia, durante a sua estadia, um tufão devastador ataca, deixando centenas de pessoas sem comida, água ou abrigo. Felizmente, você não foi afetado pela tempestade. Você tem uma pequena cabana acolhedora que fica no alto de uma colina e bem abastecida com tudo o que precisa. A destruição na costa tornou impossível que se desloque pela colina baixo, mas ainda assim você pode ajudar, dando dinheiro para o esforço de socorro, que já está em andamento. Você tem obrigação de ajudar?

Se você é como a maioria das pessoas, respondeu “sim”.

Agora imagine-se sentado em casa. Um dia, seu amigo que está de férias em um país em desenvolvimento, em uma colina com vista para o mar, liga para você para informá-lo sobre um tufão devastador que acaba de atacar, deixando centenas de pessoas sem comida, água ou abrigo. Felizmente para o seu amigo, ele não foi afetado pela tempestade. Ele tem uma pequena cabana acolhedora que fica no alto de uma colina e bem abastecida com tudo que precisa. Durante a chamada, ele mostra um vídeo da destruição no litoral em tempo real. Você pode ajudar dando dinheiro para o esforço de socorro, que já está em andamento. Você tem a obrigação de ajudar?

Se você é como a maioria das pessoas, você respondeu “não”.

Porquê? Em ambos os cenários, esses habitantes não são considerados seus amigos, seus parentes ou membros da sua comunidade. Em ambos os cenários, os habitantes estão igualmente com necessidade de sua ajuda, e você é igualmente capaz de ajudar. Em ambos os cenários, existem muitas outras pessoas que poderiam ajudar da mesma maneira que você. E ainda assim, o dobro das pessoas acredita que seriam moralmente obrigadas a ajudar no primeiro cenário por comparação com o último [1].

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A única diferença notável entre estas duas opções é a proximidade física. No primeiro caso, os habitantes estão a sofrer perto de você e no segundo eles estão a sofrer longe. Esta experiência demonstra uma característica importante da nossa psicologia: as pessoas que estão fisicamente distantes parecem moralmente menos importantes.

Intuitivamente, a proximidade física importa. Mas será que a proximidade física deveria  importar? As nossas respostas a estes dois cenários demonstram um viés cognitivo, no sentido de que, quando refletimos um momento, o afastamento geográfico não é o tipo de coisa que pensamos que devemos ter em conta. Por exemplo, imagine que alguém lhe pede uma doação para, digamos, alimentar crianças a morrer à fome. Seria muito estranho, para dizer o mínimo, se você respondesse: “Bem, isso depende. A que distância de mim estão essas crianças que você irá alimentar?” Isso simplesmente não nos parece uma pergunta apropriada para se colocar.

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Na primeira, o viés da proximidade física pode parecer meramente uma característica curiosa de nossa psicologia – isto é, até você reconhecer a enorme quantidade de miséria humana pelas quais é responsável. Desde que você começou a ler este artigo, uma criança morreu de malária. Até o final deste ano, mais de meio milhão de crianças terão morrido de malária [3]. Estas tragédias são fácil e inteiramente evitáveis pelas ações daqueles que vivem no mundo desenvolvido. Ao nível individual, 1 000 pessoas já comprometeram, pelo menos, dez por cento do seu rendimento ao combate à malária e outras causas da pobreza extrema através da Giving What We Can. Se outros 100 000 seguirem o exemplo, poderíamos erradicar a malária nos próximos quinze anos [4]. Ao nível governamental, a mesma façanha poderia ser realizada com apenas 0,2% do orçamento federal anual dos EUA [5].

Por que não estamos fazendo isso? Em grande parte tem a ver com o fato de as crianças não morrem de malária onde vivemos. Elas morrem longe, na África, onde o seu sofrimento e o sofrimento de suas mães e pais parece sem importância. Não importa sua nacionalidade se centenas de milhares de crianças com menos de cinco anos de idade estivessem a morrer nos EUA, encontraríamos 100 000 pessoas dispostas a doar para ajudá-las. Aumentaríamos o orçamento federal em 0,2% para ajudá-las. Mas em vez disso, estas crianças vivem a milhares de quilómetros de distância de nós, e por isso não sentimos o mesmo nível de empatia que de outra forma nos levaria a salvá-las. Este é o poder do viés da proximidade física.

“O problema não é que os recursos sejam muito escassos. Nós teremos o suficiente em alimentos, água e energia para sustentar a humanidade no futuro próximo. O problema não é nem mesmo que nós precisemos dar mais. Só nos EUA os contribuintes privados já doam dinheiro o suficiente para eliminar a pobreza extrema. O problema é que nós precisamos dar de forma mais eficaz.”

O problema com o Altruísmo

Pessoas realizam atos de altruísmo todos os dias. Quando falo de “altruísmo”, neste contexto, eu não estou a falar de atos de bondade para com os membros da sua família, amigos ou comunidade. O tipo de altruísmo em que estou interessado envolve algum sacrifício pessoal em prol de pessoas que você provavelmente nunca conheceu, nem terá a oportunidade de encontrar. Isso poderia ser qualquer coisa, desde segurar a porta para um estranho passar até doar à caridade uma parte substancial da sua riqueza pessoal. Mas há muitos problemas com o nosso comportamento altruísta. E não há uma ilustração mais dramática desses problemas do que o fato de nós, no mundo desenvolvido, continuarmos a permitir que centenas de milhares de crianças morram de malária apesar de estar bem ao nosso alcance salvá-las.

Já aludi ao meu diagnóstico da causa principal desses problemas – a nossa incapacidade de perceber e superar preconceitos morais. A proximidade física é apenas um de uma série de fatores morais obviamente sem importância que, no entanto, influenciam nosso comportamento altruísta. Outros exemplos incluem a raça e o país de origem das pessoas necessitadas. Presumivelmente, o objetivo do nosso comportamento altruísta não é ajudar aqueles que por acaso estão perto de nós, ou que por acaso sejam da mesma raça ou tenham nascido no mesmo país que nós. Tire um momento para pensar sobre qual é realmente a finalidade do altruísmo. As respostas vão variar um pouco com base em diferenças culturais, mas quase todo mundo tende a convergir para um único núcleo ideal – melhorar a vida das criaturas conscientes, tanto quanto puder.

Quando você ouve isso, parece ser uma idéia incrivelmente óbvia. Por exemplo, se eu doar 100 dólares para a caridade, e tiver a escolha entre fazer uma doação para uma instituição de caridade que possa salvar 2 crianças ou 20 crianças da fome, eu deveria escolher salvar as 20. Esta intuição é partilhada quase universalmente. Como Joshua Greene – um dos principais pesquisadores da psicologia moral na Universidade de Harvard – uma vez me disse, nunca executou um experimento no qual o sujeito dissesse alguma coisa como: “Salvar mais vidas? Por que haveria de fazer isso?”

A realidade é que somos confrontados com estas escolhas o tempo todo. Cada dólar que doamos para a caridade, ou para os nossos governos gastarem com o bem público, pode fazer mais ou menos para melhorar a vida das criaturas conscientes, dependendo de como ele é gasto. No entanto, quando ajudamos os outros, a questão de quanto bem nosso dinheiro irá fazer, muitas vezes não passa por nossas mentes. Nós vemos as pessoas com necessidades, sentimos um forte desejo visceral para ajudar e doar para a causa. Fim do cálculo moral. Raramente nos perguntamos quanto bem a mesma quantidade de dinheiro poderia ter feito se tivéssemos doado para, digamos, a Against Malaria Foundation, classificada como a instituição de caridade mais eficaz no mundo pela GiveWell.

Atualmente, a maioria das pessoas são altruístas ineficazes, cuja generosidade está sob os caprichos de preconceitos morais, e cuja bondade acaba ajudando menos pessoas do que de outra forma poderiam. O problema não é que os recursos sejam muito escassos. Nós teremos o suficiente em alimentos, água e energia para sustentar a humanidade no futuro próximo [6]. O problema não é nem mesmo que nós precisemos dar mais. Só nos EUA os contribuintes privados já doam dinheiro o suficiente para eliminar a pobreza extrema [7]. O problema é que nós precisamos dar de forma mais eficaz.

No domínio da moralidade, o pensamento objetivo salva vidas. Então, como podemos aprender a tomar decisões altruístas mais objetivamente? Antes de responder a essa pergunta diretamente no meu próximo post, quero fazer uma analogia entre a forma como pensamos sobre moralidade e como pensamos sobre economia. Quando se trata de altruísmo, nosso objetivo – ou, pelo menos, um dos nossos objetivos mais importantes – deve ser o de melhorar a vida das criaturas conscientes, tanto quanto possamos. Quando se trata de economia, nosso objetivo é aumentar a nossa riqueza pessoal, tanto quanto possamos. Ambos são atormentados por vieses cognitivos míopes, que impedem a nossa capacidade de alcançar estes objetivos. Mas os dois domínios são fortemente não-análogos, pois no caso da economia temos, em grande parte, aprendido a identificar e a triunfar sobre os nossos preconceitos. Talvez os métodos pelos quais nós superamos os nossos preconceitos econômicos possam superar os nossos preconceitos morais também.

Referências

  1. Musen, Jay. “Moral Psychology to Help Those in Need.” Thesis. Harvard University, 2010. Impresso, como descrito por Greene, Joshua David. Moral Tribes: Emotion, Reason, and the Gap between Us and Them. New York: Penguin, 2013. Impresso.
  2. Charge cortesia de Mukesh Ghimire
  3. World Health Organization. “Malaria” WHO. N.p., Abr. 2015. Web. 20 Abr. 2015.
  4. Zelman 2014 (Zelman B, Kiszewski A, Cotter C, Liu J (2014) Costs of Eliminating Malaria and the Impact of the Global Fund in 34 Countries. PLoS ONE 9(12): e115714. doi:10.1371/journal.pone.0115714) prevê que serão necessários 8,5 biliões [Pt. 8,5 milhares de milhões] de dólares nos próximos 15 anos para eliminar a malária. Calcula-se que aqueles que assumem o compromisso de doar 10% do seu rendimento tenham um rendimento bruto anual de 50 mil dólares, o que é bastante normal em países desenvolvidos.
  5. O orçamento federal dos EUA em 2015 foi de 3,9 triliões [Pt. 3,9 biliões] de dólares (National Priorities Project.“Federal Spending: Where Does the Money Go.” National Priorities Project. N.p., n.d. Web. 23 Abr. 2015., “Federal Spending”).
  6. Armstrong, Stuart. “Water, Food, or Energy: We Won’t Lack Them.” Practical Ethics. University of Oxford, 22 Nov. 2011. Web. 23 Abr. 2015.
  7. Giving USA 2014 (Giving USA. “Annual Report on Philanthropy.” Lilly Family School of Philanthropy, 2014. Web. 23 Apr. 2015. ) relatam que a contribuição dos doadores dos EUA cheguem a 335 bilhões [Pt. 335 milhares de milhões] de dólares  em 2013. A pobreza extrema é definida como viver com menos de 1,50 dólares por dia – tal como fazem 1,2 bilhões [Pt. 1,2 milhares de milhões] de pessoas hoje. Assumindo que o seu rendimento fosse normalmente distribuído, podemos simplesmente dar-lhes dinheiro o bastante para os fazer subir acima da linha de pobreza por 330 bilhões [Pt. 335 milhares de milhões] de dólares anuais.

 


Publicado originalmente por Dillon Bowen no blogue da Giving What We Can, em 9 de julho de 2015.

Traduzido por Thiago Tamosauskas, revisão por José Oliveira.

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