A Economia da doação: como as nossas emoções atrapalham na ajuda aos outros

Por Annie Duflo (Quartz)

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No Natal como ajudar, com emoção ou razão? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

As doações para instituições de caridade aumentam muito no final do ano. Mas o número de causas e organizações pedindo contribuições pode ser esmagador — o que traz grande incerteza sobre se estamos fazendo o máximo que podemos com o nosso dinheiro.

Eu dirijo uma organização sem fins lucrativos que utiliza conhecimentos comportamentais e rigorosas avaliações de eficácia de programas para conceber os melhores programas e políticas destinados a ajudar os pobres do mundo. Aqui estão algumas dicas que aprendemos sobre como doar com eficácia:

1. Ignore o mito das despesas gerais. Quanto gasta uma instituição de caridade em custos administrativos é um número fácil de se obter, mas é um número enganador. Não diz nada sobre se a organização está obtendo bons resultados. Em vez disso, busque organizações como a The Life you Can Save e a GiveWell, que recomendam instituições de caridade com base na sua eficácia.

Verifique se as instituições de caridade que está considerando investem em avaliações externas rigorosas ou usam avaliações existentes de programas semelhantes, para que saibam se os seus métodos compensam. E recompense as organizações que estejam dispostas a mudar de rumo caso as avaliações tornem claro que os seus programas não estão funcionando.

2. Reconheça o viés do imediatismo. A pesquisa mostrou que somos atraídos por causas emocionais imediatas, mesmo quando não estejam a prejudicar um número maior de pessoas. Por exemplo, a malária e doenças diarreicas matam muito mais pessoas do que desastres naturais como terremotos. Mas uma vez que estas doenças são permanentes, não aparecem nas notícias tão frequentemente e não evocam a mesma urgência emocional em nós.

No entanto, os mesmos estudos também mostram que o nosso juízo racional prevalece se esperarmos um dia entre ver um vídeo de apelo emocional e tomar decisões de caridade. Por isso, é adequado deixar um vídeo viral motivá-lo a doar — mas não escolha a sua causa (ou instituição de caridade) no calor do momento.

3. Dê onde os seu dinheiro possa ajudar mais pessoas. “A caridade começa em casa”, diz o ditado popular. Pode ser tentador ajudar a causa que conhecemos ou que esteja mais perto de nós, mas o investimento que é familiar nem sempre é o melhor.

Mas a verdade é que a necessidade é maior nos países pobres, e o custo de ajudar as pessoas é muito mais barato. Apoiar o hospital que cuidou de um ente querido pode ser uma causa que está mais perto do seu coração. Mas o seu dinheiro vai muito mais longe no exterior.

4. Esteja ciente da contabilidade mental – a tendência a categorizar o nosso dinheiro em diferentes “caixas” mentais. Fazer distinções artificiais sobre seus gastos pode atrapalhar a tomada de decisões eficazes, mas também pode usar isso em sua vantagem. Um estudo mostrou que, quando quem poupa teve a oportunidade de rotular uma conta de poupança adicional com um objetivo particular que almejava, tal como comprar uma casa ou pagar encargos escolares, pouparam 30% a mais.

Uma vez que a época festiva tende a coincidir com muitas compras, é fácil acabar com pouco dinheiro para doar para outros lados. Separe mentalmente os seu dinheiro de caridade com antecedência para se certificar que este não irá competir com outros gastos de fim de ano — e se não o fez este ano, comprometa-se a fazê-lo no próximo.

5. Pense no seu eu futuro. Na Odisseia de Homero, Ulisses sabia que não seria capaz de resistir à tentação das sereias para que dirigisse o seu navio contra as rochas — por isso fez com que seus homens o amarrassem ao mastro.

Da mesma forma, descobrimos que “dispositivos de compromisso” a nível comportamental permitem que as pessoas restrinjam o acesso às suas contas e ajudam a aumentar as suas poupanças (em 82%!). Você pode fazer o seu próprio dispositivo de compromisso para a doação de caridade: Quando fizer as doações deste ano, programe uma doação mensal de cartão de crédito para o próximo ano para se certificar de que pode doar o ano todo.

As nossas emoções podem ser bastante úteis para motivar-nos a doar.  Elas nos permitem sentir empatia com pessoas que nunca conhecemos antes. Mas deixar nossas emoções guiar inteiramente nossas decisões pode levar a resultados menos eficazes para as pessoas em necessidade. Usar a sua cabeça e o seu coração vai garantir que o seu dinheiro ajude o máximo de pessoas que puder.


Texto de Annie Duflo (Diretora Executiva do Innovations for Poverty Action) publicado originalmente no Quartz, a 29 de dezembro de 2015.

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão de José Oliveira.

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