As empresas vão honrar o seu compromisso tornando-se livres de gaiolas?

Por Open Philanthropy Project (Farm Animal Welfare Newsletter)

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Empresas alimentares livres de gaiolas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

A partir de 2015/2017, os defensores da causa animal garantiram compromissos de mais de 300 empresas alimentares nos EUA para eliminar as gaiolas em bateria para a maior parte de mais de 240 milhões de galinhas poedeiras em suas cadeias de fornecimento,  até 2025. (Os defensores da causa animal também asseguraram mais de 800 compromissos de empresas alimentares não americanas — assunto de um futuro boletim informativo).

Esta foi uma grande vitória para o movimento pelos animais da pecuária industrial. Menos de 50 defensores da causa animal em tempo integral pressionaram a indústria de ovos de 9 bilhões [Pt. 9 mil milhões] de dólares a se comprometer a eliminar a sua principal prática comercial — confinar galinhas em gaiolas minúsculas — com um custo para a indústria de 7 a 9,5 bilhões [Pt. 7 a 9,5 mil milhões] de dólares. Uma reportagem de primeira página do Washington Post em 2016 declarou uma “vitória para o movimento do bem-estar animal”, observando que até mesmo os produtores de ovos pensam que um “futuro livre de gaiolas é um fato consumado”.

Em um excelente novo post, Saulius Šimčikas, da Rethink Priorities, avalia a relação custo-eficácia dessas campanhas para acabar com as gaiolas e as campanhas globais que lhes seguiram. Ele verificou que, mesmo tendo em conta os milhões gastos em investigações e outras atividades de defesa animal que apenas indiretamente apoiaram as campanhas, elas afetaram de 12 a 160 anos de vida animal por cada dólar gasto.

Mas isso só se aplica se as empresas honrarem os seus compromissos. E, dois anos depois, há sinais preocupantes de que algumas podem não o fazer. A Marriott e a Burger King adiaram os seus compromissos de 2015 e 2017, enquanto a Disney e a Hilton cumpriram apenas parcialmente os seus. Alguns produtores de ovos interromperam os planos de conversão para acabar com as gaiolas, alegando uma fraca demanda. Uma nova pesquisa descobriu que os maiores produtores de ovos dos EUA acreditam que a maioria das galinhas ainda estará em gaiolas em 2025.

Um ótimo novo relatório da Karolina Sarek, da Charity Entrepreneurship, reflete essa preocupação. Ela analisa provas históricas e da indústria relevantes sobre o assunto, por exemplo, descobrindo que quatro grandes empresas alimentares cumpriam apenas metade de seus compromissos de responsabilidade social corporativa desde 2000. Conclui que devemos esperar que apenas metade das empresas que assumiram novos compromissos de bem-estar animal os cumpram.

Mesmo as proibições legislativas estão sob ameaça. Os produtores de ovos de Michigan, que em 2009 apoiaram uma proibição das gaiolas com o compromisso de entrar em vigor em 2019, têm feito lobby para atrasar a implementação da proibição. E embora a King Amendment esteja felizmente morta, 13 estados de pecuária industrial continuam com um processo federal para derrubar as proibições de gaiolas da Califórnia e de Massachusetts.

Então, será que estamos condenados a um futuro com gaiolas de bateria?

As boas notícias

Não me parece. Os produtores de ovos dos EUA não estão suprimindo as gaiolas com rapidez suficiente, mas elas estão a ser suprimidas. Em 2014, o ano em que começaram a sério as campanhas face a corporações para acabar com as gaiolas, 17 milhões de galinhas, ou 6% da população de galinhas nos EUA, ficaram livres de gaiolas; hoje, 67 milhões de galinhas, ou 20% da população de galinhas nacional, está livre. Essa tendência deve continuar: os produtores de ovos dizem que planejam adicionar ou converter galinheiros livres de gaiolas para 12 milhões de galinhas em 2019 (embora também planejem adicionar gaiolas para 1 milhão). Dado que a maioria dos compromissos só acabam em 2025, é surpreendente que já tenha havido tanto progresso.

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A população de galinhas livre de gaiolas dos EUA expandiu significativamente desde que as campanhas face a corporações começaram em 2014. Fonte: USDA.

 

O progresso foi impulsionado pelos principais revendedores. A Costco alcançou os ganhos mais impressionantes: quando os defensores da causa animal fizeram uma grande campanha contra ela, em 2015, 26% de suas vendas de ovos estavam livres de gaiolas; hoje estão 89%. As quatro maiores redes de supermercados da América — Walmart, Kroger, UNFI (Supervalu) e Albertsons — estão menos adiantadas com 12% a 29% livres de gaiolas, mas mesmo assim, juntas representam cerca de 14 milhões de galinhas livres de gaiolas devido à sua escala.

Os preços sugerem que esse progresso continuará. A indústria de ovos lançou inúmeras peças nos meios de comunicação sobre a fraca demanda dos consumidores por ovos livres de gaiolas. Mas os dados do USDA mostram que os revendedores estão vendendo ovos livres de gaiolas por 2 a 3 vezes o preço dos ovos de gaiolas, embora só custem cerca de 36% a mais para produzir. Isso é assim provavelmente porque os revendedores estão usando ovos de gaiolas como vendas a baixo preço e ovos livres de gaiolas para discriminação de preços. Assim que os ovos livres de gaiolas se tornem o novo padrão, isso deve mudar.

A transparência também deve ajudar nesse progresso. Embora a maioria das empresas não esteja relatando publicamente o seu progresso ao tornar-se livre de gaiolas, isso está mudando. Na sequência dos relatórios recentes do McDonald’s e do Walmart (33% e 14%, respectivamente, livre de gaiolas), oito dos dez maiores compradores de ovos estão relatando de alguma forma seu progresso ao se tornarem livres de gaiolas. O relato público e o progresso ao tornar-se livre de gaiolas estão correlacionados, embora a causa provavelmente flua nos dois sentidos.

 

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Empresas dos EUA com mais galinhas livres de gaiolas em sua cadeia de fornecimento, com base em seus relatórios públicos. O tamanho de cada círculo representa o número de galinhas livres de gaiolas na cadeia de fornecimento de cada empresa.
Fontes: estimativas de galinhas na cadeia de fornecimento de cada empresa e cota de mercado, compilados a partir de dados do USDA e relatórios das empresas; dados da % livre de gaiolas são das próprias empresas e não são verificados: Costco, Walmart, Albertson’s, Kroger, Whole Foods Market e McDonald’s. Para calcular o número de galinhas afetadas apenas pelo progresso dos ovos em casca, assumo que 90% dos ovos vendidos em revenda são ovos em casca.

As novas leis estaduais irão acelerar essa transição. Com exceção de uma perda judicial, a Questão Três de Massachusetts e a Proposição 12 da Califórnia irão exigir que todos os ovos vendidos em ambos os estados estejam livres de gaiolas até 2022. O estado de Washington acabou de aprovar uma lei semelhante depois que a HSUS ameaçou uma medida eleitoral, enquanto a Assembleia Legislativa do Oregon fez o mesmo na semana passada (o projeto de lei aguarda a assinatura do governador). Assumindo que esses estados já estão usando cerca de 20% de ovos livres de gaiolas, seus 58 milhões de habitantes irão precisar que mais 46 milhões de galinhas e frangas estejam livres de gaiolas até 2024.

O que podemos fazer?

Acho que algumas estratégias são particularmente promissoras para responsabilizar as empresas face aos seus compromissos.

Primeiro, precisamos conseguir que os revendedores — que de acordo com as estimativas do USDA representam 81% de todos os ovos abrangidos por esses compromissos — diminuam a venda de ovos de gaiolas. Embora alguns grandes revendedores como a Costco estejam no caminho certo, a maioria não está. Alguns até estão tentando fugir de seus compromissos; Publix adverte que a fraca demanda “pode afetar nossa capacidade de atingir o objetivo que anunciamos” para nos tornarmos livres de gaiolas. Devemos chamar a atenção para esse absurdo. Os revendedores se comprometeram a ficar 100% livres de gaiolas, e não a esperar pelos consumidores individuais, cujas pesquisas mostram que esperam que os revendedores garantam padrões de bem-estar. E mudanças simples — como a cobrança de margens iguais em ovos de gaiolas ou livres de gaiolas — poderiam fazer uma enorme diferença nas vendas.

Segundo, precisamos fazer com que as empresas relatem publicamente seu progresso em tornar-se livres de gaiolas. Os oito maiores compradores de ovos que reportam publicamente representam coletivamente cerca de 105 milhões de galinhas, ou uma em cada três galinhas dos EUA. Mas dos outros 50 maiores compradores de ovos — que juntos respondem por outros 70 milhões de galinhas — apenas nove estão divulgando seu progresso. O EggTrack da CIWF USA e o novo indicador de desempenho da HSUS são ferramentas essenciais para mudar isso.

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O que está em causa: gaiolas de bateria confinam galinhas em pequenos espaços por mais de um ano sem acesso a ninhos, poleiros ou outras necessidades básicas. Fonte: fotografia pessoal [OPP].

Terceiro, precisamos fazer com que as empresas definam passos para serem 100% livres de gaiolas. A indústria de ovos está certa de que, se todos os compradores esperarem até 2025 para se tornarem livres de gaiolas, não haverá ovos suficientes. Em vez disso, as empresas precisam definir datas anteriores pelas quais uma certa percentagem de seus ovos, ou todos os ovos usados por certas marcas, serão livres de gaiolas. Ahold Delhaize (que é dona da Giant e da Food Lion) é um bom exemplo: assumiu o compromisso de que quatro de suas cadeias de revenda nos Estados Unidos irão tornar-se 100% livres de gaiolas até ao final de 2022, e as duas últimas até 2025.

Quarto, precisamos manter a pressão sobre os produtores para que façam a transição mais cedo e para que melhorarem os sistemas. Os produtores de ovos da Nova Zelândia não conseguem acompanhar a crescente demanda por ovos livres de gaiolas para a qual não se prepararam, enquanto os produtores de ovos do Reino Unido estão removendo agora “gaiolas melhoradas”, instaladas há apenas alguns anos, a um custo de 400 milhões de libras, porque o mercado de ovos de gaiola está em colapso. Os produtores de ovos dos EUA correm o risco de cometer erros semelhantes: alguns estão atrasando a construção livre de gaiolas, enquanto outros estão instalando “sistemas combinados”, que podem alternar entre gaiolas e livres de gaiolas. Podemos chamar a atenção aos investidores e credores desses produtores que as gaiolas e os sistemas combinados poderiam se tornar “artigos encalhados”, sem valor em um mundo onde todos os grandes compradores só querem ovos livres de gaiolas.

Quinto, precisamos fazer campanhas contra empresas que não cumprem seus prazos. A Humane League já fez isso com a Marriott e a Hilton, garantindo, em cada caso, novos compromissos muito maiores e em prazos mais apertados. As maiores empresas de serviço alimentar — Aramark, Compass Group, Delaware Norte e Sodexo — todas têm compromissos que vencem este ano ou no próximo, e representam alvos óbvios para campanhas de fiscalização se ainda não estiverem 100% livres de gaiolas.

Os defensores da causa animal precisam da nossa ajuda nessa luta. Se você puder contribuir com tempo, participe dessas campanhas por meio da Fast Action Network ou da Hen Hero Network. Se você puder contribuir com dinheiro, pode doar para um dos grupos que lideram este trabalho de implementação: a Humane League, a Mercy for Animals, ou a CIWF USA.

 


Texto publicado originalmente pela Open Philanthropy Project na Farm Animal Welfare Newsletter, em 7 de Agosto de 2019.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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