Altruísmo Sem Polêmica: O papel da The Life You Can Save no Altruísmo Eficaz

Por Celso Vieira

AE sem plemica

Altruísmo, sem polémica? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

(Uma versão prévia desse texto foi apresentada nas Conversas Sobre o Altruísmo Eficaz. Eu agradeço aos participantes cujos comentários e objeções melhoraram o argumento que, no entanto, ainda vai se desenvolver)1

Altruísmo sem polêmica

Oferecer um argumento que estabeleça por que é que devemos ajudar os outros é mais difícil do que sentimos. No entanto, justamente por causa desse sentimento de que deveria ser simples, valorizar o altruísmo não gera muita polêmica. A moralidade do senso comum simplesmente aceita que ajudar os outros é uma coisa boa. Uma vez que ajudar os outros é bom, segue-se também, quase naturalmente, que, estando todas as outras coisas iguais, mais de uma coisa boa é melhor do que menos. Dessa forma, fica claro que ajudar os outros é um bem, e que é melhor fazê-lo de modo que a nossa ajuda alcance mais pessoas. Mas para ficarmos no senso comum, é preciso de mais algumas qualificações. Primeiro, essa ajuda busca a evitar o sofrimento daqueles que encontram-se nas piores situações de uma determinada sociedade. Uma segunda qualificação importante para evitar a polêmica é que “pessoas” se refira a “pessoas humanas”. Eis um argumento pelo altruísmo alinhado ao Altruísmo Eficaz (AE), mas recorrendo apenas à moralidade do senso comum, que, eu suponho, a maioria das pessoas aceitaria.

O meu ponto inicial é que esse argumento define a abordagem da The Life You Can Save (TLYCS) dentro do AE. Afinal de contas, ela defende que devemos doar uma parte moderada dos nossos ganhos e, para isso, indica organizações eficazes. Por fim, a ajuda dessas organizações se restringe a pessoas humanas e estas lidam com a pobreza global. Essa abordagem não polêmica faz da TLYCS uma exceção dentro do AE. Se olharmos as outras organizações do movimento notaremos uma diferença de grau nos passos do argumento acima que acaba se desviando do senso comum e gerando mais polêmica.

Onde começa a polêmica

Além de aceitar que ajudar os outros é uma coisa boa, podemos defender que seja uma obrigação ou uma oportunidade2. Nesse caso, nos aproximamos da prescrição utilitarista segundo a qual devemos selecionar todas as nossas ações a fim de maximizar o bem gerado. Esse bem gerado deve ainda ser contado de maneira impessoal, podendo abarcar todos os seres sencientes, incluindo animais e até alguma forma de inteligência artificial, em vez de apenas pessoas humanas. O bem gerado também não precisa ser apenas negativo, como no caso de se evitar o sofrimento. Pode se pensar também em melhorar o bem-estar. Tampouco é necessário que se defenda um tipo específico de causa, como a pobreza global. Também não é preciso assumir um certo prioritarismo que garante um privilégio de recepção de ajuda aos mais necessitados, portanto podemos ser neutros face às causas. Assim, a quantidade de bem terá a primazia ao guiar a tomada de decisão. Um tal desenvolvimento das tendências já presentes na versão não polêmica se desvia bastante do senso comum.

Slogans

O AE tende, desde sempre, a aceitar essas versões mais radicais. Para resumir a polêmica em slogans que foram, ou são, adotados pelo movimento, teríamos:

Ganhar para doar, consiste em comprometer grande parte dos nossos ganhos com ajudar os outros, ainda que seja para doar para pobreza global.3

Expansão do círculo moral, consiste em considerar qualquer ser senciente como um paciente moral, ou seja, um ser capaz de sofrer que deve ter seus interesses reconhecidos.

A busca pela causa x, defende que devemos investir muita pesquisa e reflexão para encontrar o melhor meio de fazer o bem. Essa causa x, que ainda não sabemos qual é, provavelmente não é a pobreza.

Preocupação com riscos existenciais, a busca pela causa x pende para o longotermismo, em que se considera o futuro da humanidade a longo termo e tenta evitar os riscos que levariam a humanidade à extinção.

Organizações

A maioria das outras organizações AE aceitam, em maior ou menor grau, uma ou mais dessas implicações, como nos seguintes exemplos:

80.000 Horas: aconselha a seguir carreiras que causem o maior impacto positivo no mundo. Donde se identifica que devemos usar o altruísmo para guiar as nossas escolhas profissionais.

Animal Charity Evaluators: assume que garantir o bem-estar animal é a maneira mais eficaz de acabar com a maior parte do sofrimento na terra.

Global Priorities Project [Projeto das Prioridades Globais]: busca os meios de se gerar mais bem ao mundo a partir de uma perspectiva neutra sobre quais causas seriam mais promissoras de antemão. Eles não apontam a pobreza global como especialmente promissora.

Future of Humanity Institute [Instituto para o Futuro da Humanidade]: assume que o maior bem resulta de pensar no futuro a longíssimo prazo, se preocupando com o bem-estar das gerações futuras mais do que o presente.

Utilidade

A TLYCS, portanto, está de acordo com a moralidade do senso comum e, por isso, destoa das outras organizações do AE. Se a maioria de nós já agisse segundo a sua moralidade, a TLYCS não teria lá muita utilidade. No entanto, altruísmo sem polêmica quer dizer apenas que a maioria de nós concordaria com o argumento se o escutássemos (pelo menos, em um contexto em que não estivéssemos na defensiva). Isso, no entanto, está longe de significar que a maioria de nós age de acordo com o argumento, ainda que o endossemos. Há um grande abismo entre as nossas crenças morais e as nossas ações.

É para mostrar esse descompasso entre crenças e ações, para convencer, e prover as informações necessárias para se agir de acordo com o senso comum que a TLYCS concentra seus esforços. Isso fica claro no foco ameno de que devemos nos comprometer a doar 1%, 2%, 5%, 10% do nosso rendimento para as instituições que atuam no âmbito do combate à pobreza extrema.

Prioridade

A TLYCS está longe de ser a organização ou a abordagem mais influente no AE. Se formos ao Questionário AE 2019, apenas 0,9% dos participantes ficaram sabendo do AE pela TLYCS. Donde podemos concluir que, se o senso comum a faz popular entre a maioria das pessoas (o que eu não sei se é o caso), isso não parece se converter em atrair pessoas ao AE. Além disso, ela tampouco apela significativamente aos participantes mais engajados ou influentes do movimento.4

Diante disso, devemos nos perguntar se faz sentido mudar essa posição da TLYCS no AE e, se sim, como fazê-lo. Para a primeira parte da pergunta, o modo mais imediato de defender a importância da TLYCS seria mostrar, pela quantia gerada por doações, que esse é o jeito mais eficaz de gerar benefícios. Colocado mais claramente, se for o caso que adotar uma posição mais próxima do senso comum torna mais fácil o trabalho de converter não-doadores em doadores.

Uma motivação para essa hipótese vem da comparação com a causa animal. Afinal de contas, para convencer alguém que a causa animal é importante seria preciso um grande trabalho para mudar as suas crenças e, só então, converter isso em ação. Como vimos, há um abismo entre crenças e ações. No caso da pobreza global, como as crenças já são partilhadas, bastaria converter em ação.5

Se essa hipótese se provar verdadeira, estaríamos errados ao sermos altruístas e divulgarmos o AE de uma maneira diferente da TLYCS. Porém, se esse não for o caso, então estaríamos errados em sermos altruístas e divulgarmos o AE como na TLYCS. Será o caso que a nossa questão se resume a essas duas questões que se excluem? A resposta é afirmativa, se seguirmos o cálculo mais popular para se guiar a tomada de decisão no AE.

Cálculo de Valor–Esperado

No método para a tomada de decisão mais popular no AE, o principal fator para se tomar uma decisão deve ser o valor esperado. Sem entrar em formalizações, trata-se da soma dos resultados possíveis multiplicados pela sua probabilidade. Assim, quanto menor a probabilidade, menor o peso de um valor possível.6 Porém, como se trata de um modelo linear, quando temos um resultado muito alto, ele acaba anulando uma probabilidade baixa. Um exemplo vai ajudar a demonstrar.

Compare contribuir mensalmente com um seguro de saúde com usar o mesmo valor mensal para apostar em uma loteria que te oferece a oportunidade de ganhar uma grande soma de dinheiro. Para ver o efeito do cálculo de valor-esperado, basta notarmos que, à medida que a quantia do prêmio aumenta, vai ficando mais plausível arriscar na loteria. Afinal de contas, após um certo valor, ainda que seja mais arriscado, o ganho vai te possibilitar pagar tratamentos muito mais caros que aqueles cobertos pelo seguro.

Agora, pensemos no caso de o retorno ser infinitamente grande, por exemplo, se o prêmio te oferece a possibilidade de garantir a sua imortalidade. Quem pensa segundo um cálculo de valor esperado, ainda que compute o quão pequena é a probabilidade de se tornar imortal, em vista de um ganho tão alto, vai decidir apostar.

Esse tipo de cálculo leva ao foco no longotermismo e riscos existenciais. Por exemplo, imagine que você atribua o valor 1 para cada vida salva agora. Imagine que você ache que vidas futuras, devido à incerteza, devam ter um valor menor, bem menor, como 0,01. No entanto, como o número de vidas futuras é enormemente maior do que a de presentes, não importa quanto menos você valorize vidas futuras ou esteja incerto sobre o benefício que podemos causar a elas, o valor esperado de uma tal intervenção vai ser sempre maior que as possibilidades presentes.

Essa postura gera consequências práticas também no caso do combate à pobreza global. Por exemplo, há uma tendência crescente no AE de defesa do que se chama altruísmo paciente, em que se decide investir e acumular o dinheiro que seria doado a fim de se esperar para doar no futuro quando tanto a quantia quanto as informações para se fazer o bem serão maiores. Isso, é claro, traz consequências desastrosas para a parcela da população que está sofrendo agora de causas ligadas à pobreza para as quais já há um tratamento disponível.

Irredutibilidade

Comparar áreas de intervenção diferentes é um tópico cuja complexidade é célebre. O cálculo de valor esperado oferece um modelo simples que acaba por gerar a sensação de que essa comparação não é problemática. Porém, alguns experimentos mentais simples nos mostram que esse não é o caso.

Um dos cenários da sobrevivência a longo termo da humanidade é “terraformar” outros planetas. Nesse caso, o objetivo é mais ou menos repetir o que acontece na terra em outros planetas. Vivemos em um mundo que tem muito mais pobreza do que deveria e muito mais sofrimento animal do que deveria. Portanto, se a humanidade sobreviver assim, estaremos é multiplicando o sofrimento em uma quantidade nunca antes imaginada. Uma vez que não há nada que garanta que, em algum momento, a humanidade vai ser socialmente mais igualitária e deixar de usar os animais, essas causas devem ser tratadas independentemente.

Agora pensemos nas relações entre o sofrimento animal e a pobreza. Uma tendência observada no mundo é que diminuir a pobreza aumenta o consumo de carne e, portanto, prejudica a causa animal. É claro que essa não se trata de uma relação necessária. É possível reduzir a pobreza e também o sofrimento animal. No entanto, o que a tendência acima deixa claro é que é preciso tratar dos dois problemas separadamente.

Por fim, pensemos em um mundo em que não há sofrimento animal, mas há muita pobreza. Com certeza, esse é um cenário distópico. No entanto, esse cenário pode se seguir do cálculo de valor esperado. Isso porque o número de animais é incomparavelmente maior do que o de humanos, assim, ainda que consideremos o sofrimento de um animal como tendo um peso bem menor do que o de um ser humano, o resultado será que ainda assim faz mais sentido concentrar os esforços para diminuir o sofrimento animal. Para evitar esse resultado unificante, mais uma vez, temos que considerar as causas como irredutíveis umas às outras e, para isso, temos que recorrer não à quantificação, mas ao senso comum de que uma sociedade que perpetua o sofrimento humano não é aceitável.

Os cenários acima deixam claro que as áreas de atuação do AE não são redutíveis umas as outras.7

Regresso à normalidade

Qualquer heurística de tomada de decisão que atribua um peso significativo ao senso comum tende ao que se chama de regresso à normalidade, ou seja, por mais que se chegue a conclusões contra-intuitivas, essas serão sempre amainadas por um princípio de precaução.

A TLYCS e o seu alinhamento com o senso comum, ou seja, o compromisso mensal para combater a pobreza global, se precavê contra o tipo de conclusão extrema ilustrado na seção anterior. Ainda que a causa x seja se preocupar com o plâncton que ainda vai ser gerado na reserva de água de um planeta terraformado, ainda assim devemos nos preocupar com quem sofre agora. Em uma imagem, o ponto desse ensaio é que a TLYCS é o seguro de saúde do AE. Se algo der errado lá na frente, ou seja, se nenhuma das ideias menos consensuais se provarem eficazes, ainda assim se terá gerado muito bem ao mundo.

Também podemos colocar a questão em vista da aceitação do risco. O cálculo de valor esperado aceita os riscos. Quem opta por mais prudência, por outro lado, é avesso ao risco. Como eu discuti em outra postagem, o caso do altruísmo tem o potencial de nos colocar em uma posição mais aberta ao risco, pois quem não sentirá os efeitos, ou sentirá os efeitos contrários, não seremos nós. Diante disso, convém ser mais prudente. Eis mais uma vantagem para a TLYCS.

Por outro lado, o regresso à normalidade também apresenta um risco, a saber, o de se manter mais atado do que se deveria a comportamentos que não são benéficos. Isso fica claro ao compararmos as duas outras causas atualmente em destaque no AE. Ainda que ainda não seja consensual que o sofrimento dos animais deva ser considerado, um pouco de reflexão mostra que devemos expandir o nosso círculo moral e considerar os animais como pacientes morais, ou seja, dignos de terem seus interesses considerados quando vamos escolher as nossas ações. Além disso, só porque intuitivamente não tendemos a dar tanto peso ao futuro, esse viés não pode nos impedir de considerar a questão com seriedade. Como mostra a reflexão sobre o longotermismo, é importante ampliar o escopo ao pensar no bem-estar das gerações futuras.8

Se a argumentação faz sentido, a TLYCS é mais importante para o AE (e para o mundo) do que se reconhece, mas não a ponto de monopolizar o movimento.9

Um aliado inesperado

Se comparamos a GiveWell e a TLYCS, fica claro que a GiveWell coloca muito mais ênfase na quantificação ao fazer as suas análises e indicações. Usando medidores como QALYs e DALYs eles fornecem uma estimativa de quanto uma intervenção gera de bem por quantia de dinheiro doado. A TLYCS, por sua vez, adota um outro modelo de avaliação que podemos chamar de seguir a opinião dos especialistas. Eles têm um conselho que sugere as intervenções que serão indicadas no site. O resultado é que algumas são as mesmas da GiveWell, porém, eles oferecem muito mais opções.

ONG recomendada pela TLYCS

Avaliação da GiveWell

Malaria Consortium

Inst. de Caridade Principal

Against Malaria Foundation

Inst. de Caridade Principal

Helen Keller International

Inst. de Caridade Principal

SCI Foundation

Inst. de Caridade Principal

New Incentives

Inst. de Caridade Principal

Evidence Action (Deworm the World Iniciative)

Inst. de Caridade Principal

GiveDirectly

Inst. de Caridade Principal

Development Media International

Inst. de Caridade de Destaque

Evidence Action (Dispensers for Safe Water)

Inst. de Caridade de Destaque

GAIN’s Salt Iodization Program

Inst. de Caridade de Destaque

Zusha!

Inst. de Caridade de Destaque

Iodine Global Network

Inst. de Caridade de Destaque

Living Goods

Inst. de Caridade de Destaque

Project Healthy Children

Inst. de Caridade de Destaque

Equalize Health (D-Rev)

Sem qualquer registo / [Avaliação de 2017 pela extinta ImpactMatters]

Fistula Foundation

Situação pendente de mais avaliação

Fred Hollows Foundation

Na época não estava à altura das principais recomendações, uma nova avaliação não é uma prioridade

Innovations for Poverty Action

Inst. de Caridade de Destaque em 2011

One Acre Fund

Recusou ser avaliada / [Recomendada pela Mulago Foundation, pela Focusing Philanthropy e outros especialistas na área]

Oxfam

Na época não estava à altura das principais recomendações, uma nova avaliação não é uma prioridade

Population Services International

Recomendada várias vezes, processo de avaliação em pausa

Possible

Na época não estava à altura das principais recomendações, uma nova avaliação não é uma prioridade

Seva Foundation

A GW Espera voltar a avaliar este tipo de intervenções (cirurgia às cataratas) no futuro

Village Enterprise

Não se qualifica nas avaliações mais elevadas

A GiveWell ainda recomenda a Sightsavers e o The END fund (como Inst. de Caridade Principal) e a Food Fortification Initiative e a Precision Agriculture for Development  (como Inst. de Caridade de Destaque).

Ainda assim, no AE, há quem critique a GiveWell por não quantificar o suficiente as suas decisões. Segundo esse tipo de crítica, uma decisão altruísta deve seguir puramente um cálculo de valor esperado imparcial. A GiveWell, por outro lado, define a sua metodologia de tomada de decisão como o que ela chama de Cluster Thinking, em que se incorpora diferentes perspectivas antes de tomar uma decisão. Entre essas perspectivas temos o cálculo do valor esperado, a opinião dos especialistas, os dados empíricos, a sua robustez, a história de sucesso de um tipo de intervenção, a história da organização, entre outros. Assim, eles tentam evitar o erro de recorrer a um modelo que negligencia, sem se dar conta, um parâmetro chave para dar conta da realidade. Em situações com alto grau de incerteza, como a avaliação de intervenções, essa seria a melhor abordagem.10

Conclusão (crítica)

Se a argumentação acima faz sentido, a TLYCS tem um papel importante no AE. No entanto, como vimos, ela não está entre as organizações mais influentes do movimento. Uma hipótese que lide com esse problema pode ser construída a partir da comparação entre Peter Singer e a TLYCS, que, afinal, é a organização que deriva do livro homônimo desse filósofo. Singer é citado como uma das maiores portas de entrada para o AE.11 Portanto, deve haver algum fator que explique a diferença.

Eu apostaria que a diferença entre o livro e o site da TLYCS é justamente a abordagem mais argumentativa e crítica do livro, enquanto que o site funciona como apenas mais um site que recomenda instituições de caridade. O problema dessa última abordagem é que se perde o diferencial que caracteriza o adjetivo ‘eficaz’ do AE, ou seja, um jeito de lidar com a caridade que se compromete a usar métodos avaliativos para comprovar o que funciona.

A meu ver, dado a importância da pobreza global e de se considerar o senso comum, a TLYCS deveria adotar uma postura mais crítica na apresentação das instituições que ela indica. Desse jeito ela poderia tanto atrair mais pessoas para o AE quanto ser mais relevante dentro do AE. Essa última conclusão não pode ser negligenciada em vista da tendência percebida no movimento. Muitos daqueles que entram interessados em causas ligadas a pobreza acabam migrando para as outras causas. Há, portanto, um risco de fuga de talentos que se dedicariam a uma questão tão relevante quanto a pobreza global.

Objeções

Durante a apresentação nas conversas sobre o Altruísmo Eficaz, seguiram-se duas principais objeções:

1) Esse papel de uma análise mais crítica fica por conta da GiveWell e, assim, seria redundante que a TLYCS o fizesse. A minha resposta seria que as duas organizações têm um público que será diferente, logo, não haveria redundância. Ademais, uma vez que o espírito de análise crítica é fundamental para o movimento, ele deve aparecer em todas as suas organizações e em todo material, inclusive (e, talvez, principalmente) naquele que é destinado a um público mais geral. Isso leva à segunda objeção.

2) Por ter um escopo mais amplo, a TLYCS deve adotar uma concepção mais alinhada ao marketing, segundo a qual apresentar uma análise crítica das organizações indicadas e do seu próprio método seria contraprodutivo. Eu acho que essa abordagem seria contra a cultura de doação que o AE tenta formar, segundo a qual devemos sempre examinar, e auto-examinar, nossas escolhas em vista de melhorar os resultados. Ademais, por uma questão de coerência, uma vez que se defende um exame mais cuidadoso do que normalmente se faz ao avaliar uma intervenção, a apresentação desse exame, para se confirmar mais cuidadosa, deveria sim ter um lugar para apontar quesitos em que a intervenção pode melhorar ou deixa a desejar.

Resumindo, a TLYCS tem uma importância não negligenciável, mas, mesmo se mantendo fiel a sua proposta, ela poderia lidar com a sua posição e as suas indicações de uma maneira mais alinhada aos valores intelectuais do AE.

Notas:

1 Entre os participantes, eu agradeço, em especial, a Alcino Bonella, Fernando Moreno e José Oliveira.

2 Oportunidade, usado pelo AE, tem um sentido mais econômico, segundo o qual um agente racional vai sempre selecionar a melhor oportunidade.

3 Atualmente o AE tenta mudar a imagem inicial que associava excessivamente o movimento com pessoas que queriam ganhar o máximo para aumentar assim o montante que doariam à caridade (até porque se pensa agora que as causas mais promissoras têm mais necessidade de talento do que de financiamento). No entanto, ainda se defende que devemos comprometer boa parte do nosso rendimento para ajudar a humanidade.

4 Apenas 8,1% citam a TLYCS como importante para se engajar mais com o movimento, ainda no Question5nário AE.

5 Eu discordo dessa hipótese, mas falar isso no texto desviaria o argumento. As notas, no entanto, servem para isso. Primeiro, basta computarmos o número de animais para ver que a quantidade de sofrimento a que são sujeitos não será superada pela quantidade de sofrimento evitado pela doação contra a pobreza global. E, mesmo se não fosse, acho que o exercício de se buscar pontos cegos na moralidade senso comum, e mudar crenças, é algo importante no progresso moral que todo movimento deve procurar.

6 A fórmula seria: VE: (p1 x V1) + (p2 x V2) …+ (pn x Vn), onde p é a probabilidade e v é o valor esperado. Por exemplo, pense em uma situação. Eu posso ganhar 10$ ou posso escolher participar de um jogo de dados em que o prêmio é 66$, caso eu tire 6. Eu pago 1$ para fazer cada lance. O valor esperado do primeiro caso é 10$, o que eu ganho e a probabilidade é de 1 ou seja (1 x 10$) = 10$. Num dado justo, o cálculo seria: ((5/6) x -1), que são as chances dos valores em que não ganho nada e pago 1$. O resultado seria 0,83. Já no caso de tirar o seis eu teria (1/6) x 66, que é a chance de tirar 6 e ganhar os 66$, ou seja, o valor é 11. Se diminuo isso do valor anterior, o valor esperado desse jogo é 10,17. Logo, é mais racional apostar do que aceitar os 10$.

7 Um outro caso de possível irredutibilidade pode ser aquele da justiça social vs. sofrimento gerado pela pobreza. O AE e a TLYCS focalizam no combate ao sofrimento gerado pela pobreza. No entanto, pode se argumentar que acabar com esse sofrimento não conduzirá à justiça social e, portanto, que devemos tratar desse problema de maneira separada. Não terei tempo de tratar disso, mas é uma hipótese plausível. O que não se segue, no entanto, é a conclusão de que isso vai diminuir a importância de se evitar o sofrimento gerado pela pobreza.

8 Outra objeção relacionada pode ser que a área da pobreza global, justamente por ser o foco do senso comum, é uma área saturada em que já se colheu os frutos mais disponíveis e agora estamos em uma fase de diminuição de retorno. Uma evidência seria a queda grande e constante que temos no número de pessoas vivendo em extrema pobreza no mundo. Porém, a queda é mais lenta do que deveria, em vista da economia mundial. Além disso, a queda fica mais impressionante porque usamos como medidor a opção simplista da rendimento mínimo de cerca de 2 dólares por dia. Mas a pobreza é um fenômeno multidimensional, incluindo intervenções da saúde e de infra-estrutura. Ademais, a Covid vai interferir nesses números. E, por fim, mesmo se aceitarmos ambos argumentos acima, ainda não sabemos ao certo como fazer uma região se desenvolver economicamente, e esse é o principal fator para diminuição da pobreza.

9 As maiores ameaças de riscos existenciais estão nos eventos inesperados (com distribuição em heavy-tails, ou seja, em que casos raros mas grandes geram uma influência desproporcional na média geral). No entanto, como esses são difíceis de prever, o que se adota diante deles é um princípio de precaução, e não uma busca por inovações. Desse modo, pode se defender que uma abordagem ancorada em alguma dose de senso comum seria também relevante para o longotermismo. Porém, isso está além das aspirações desse ensaio.

10 Segundo GiveWell, em acordo com a reflexão acima, é esse tipo de análise que salvaguarda contra identificar que o bem-estar animal é 100.000 vezes mais promissor que a pobreza global e, portanto, direcionar todos os esforços para a causa animal. Da mesma maneira, também se salvaguarda com o identificar que as gerações futuras têm um peso (quase) infinitamente maior do que a causa animal, e assim por diante.

11 Peter Singer é, de longe, o mais citado entre aqueles que entram no movimento por causa de um livro ou uma palestra, mais uma vez, segundo o Questionário AE.


Por Celso Vieira.

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