Os animais da quinta e os seres humanos devem ser tratados da mesma forma, dizem as crianças

Por Steven Morris (The Guardian)

Crianças e especismo-Fx

Crianças, são menos especistas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

As crianças pensam que os animais da quinta merecem ser tratados tão bem como os seres humanos, mas perdem esta crença na adolescência, segundo o que descobriu um estudo pioneiro.

Investigadores das universidades de Exeter e Oxford perguntaram a um grupo de crianças britânicas dos 9 aos 11 anos, a jovens adultos dos 18 aos 21 anos e a homens e mulheres mais velhos sobre as suas atitudes em relação a diferentes tipos de animais.

Em geral, as crianças disseram que os animais da quinta e os seres humanos devem ser tratados da mesma forma e consideravam menos moralmente aceitável comer animais do que os dois grupos de adultos. Os resultados sugerem que o “especismo” – uma hierarquia moral que dá um valor diferente a diferentes animais – de acordo com o estudo, aprende-se durante a adolescência.

“A relação dos seres humanos com os animais está cheia de situações de dois pesos e duas medidas em termos éticos”, disse o autor principal, Luke McGuire, professor na Universidade de Exeter, especializado em desenvolvimento social e moral. “Alguns animais são companheiros domésticos muito amados, enquanto outros são mantidos na pecuária industrial para benefício económico. As opiniões parecem depender em grande parte da espécie do animal em questão: os cães são nossos amigos, os porcos são comida”.

O relatório diz que um aspecto importante da mente humana é a “acrobacia moral”: as pessoas podem ter valores éticos que se contradizem uns aos outros e empregar moralmente dois pesos e duas medidas. Mas as origens das acrobacias morais relacionadas com os animais são mal compreendidas e os investigadores dizem que este novo estudo fornece algumas das primeiras provas que examinam as diferenças na forma como as crianças e os adultos pensam sobre o tratamento dos animais.

Entre outras tarefas, apresentaram aos participantes no estudo fotografias incluindo um animal de quinta e animais de companhia e foi-lhes pedido que os classificassem como “comida”, “animal de estimação” ou “objecto”. Perguntaram-lhes como os animais eram tratados e como deveriam ser tratados.

As crianças não julgavam que todos os animais eram iguais. Concluíram, de facto, que os cães deviam ser melhor tratados do que os porcos – mas também que os porcos não deviam ser tratados de forma diferente dos seres humanos.

Os dois conjuntos de grupos de adultos disseram que os porcos deviam ser tratados menos bem do que os cães, enquanto que os seres humanos e os cães deviam ser tratados da mesma forma.

McGuire disse que o estudo sugere que, enquanto as crianças pensam que os animais da quinta e os seres humanos devem ser tratados igualmente bem, na idade adulta as pessoas acreditam que os animais de companhia e os seres humanos devem ser tratados melhor. Disse que as crianças classificaram comer animais de um modo significativamente menos permissível do que os jovens adultos e os adultos.

“Algo parece acontecer na adolescência, onde esse amor precoce pelos animais se torna mais complicado e desenvolvemos mais especismo”, disse McGuire. “É importante notar que mesmo os adultos no nosso estudo pensavam que comer carne era menos moralmente aceitável do que comer produtos animais como o leite. Assim, a aversão a maltratar os animais – incluindo os animais da quinta – não desaparece por completo”.

McGuire disse que, embora a mudança de atitudes fosse uma parte natural do crescimento, a “inteligência moral das crianças” poderia ser valiosa.

Disse ele: “Se queremos que as pessoas mudem para dietas mais baseadas em plantas por razões ambientais, temos de mudar o sistema actual algures. Por exemplo, se as crianças comessem mais alimentos à base de plantas nas escolas, isso poderia estar mais de acordo com os seus valores morais, e poderia reduzir a normalização no sentido dos valores adultos que identificamos neste estudo”.

O artigo, publicado na revista Social Psychological and Personality Science, intitula-se “The development of speciesism: age related differences in the moral view of animals” [” O desenvolvimento do especismo: diferenças relacionadas com a idade na visão moral sobre os animais”].


Publicado originalmente por Steven Morris no The Guardian, a 11 de Abril de 2022.

Tradução de José Oliveira.

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