Por Luciano Cunha

Animais selvagens, devemos ajudá-los? (Arte digital: José Oliveira | Foto: Pedro Novales/ Unsplash)
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Foi lançado em julho de 2022 o livro “Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas”, de autoria de Luciano Carlos Cunha. A obra descreve como é a vida típica dos animais selvagens e discute as implicações éticas decorrentes de sua situação.
Uma crença comum é a de que os animais selvagens são prejudicados significativamente apenas por práticas humanas. A obra descreve como esses animais são tipicamente afetados pelos processos naturais, investigando se o que tende a prevalecer em suas vidas é o sofrimento ou o desfrute e quantos animais morrem prematuramente para cada um que consegue sobreviver.
Uma visão recorrente é a de que tudo o que devemos fazer em relação aos animais selvagens é parar de prejudicá-los. Outra, por vezes defendida, afirma que devemos ajudá-los somente se forem vítimas de práticas humanas. Contudo, uma proposta que vem sendo cada vez mais discutida é a de pesquisar maneiras de ajudá-los, independentemente de a ameaça surgir de práticas humanas ou de processos naturais. O livro apresenta os argumentos que fundamentam essa proposta e discute as objeções que têm sido levantadas contra ela.
Os animais selvagens teriam um direito de viver sem interferência humana? Danos naturais seriam neutros em termos de valor? Somos moralmente responsáveis apenas por danos decorrentes de práticas humanas? Qual é a força das razões para ajudar os animais nessas situações, em comparação a casos similares em que humanos são as vítimas? Qual é o tamanho do risco de, ao tentar ajudá-los, sem querer tornarmos o cenário ainda pior em longo prazo? É possível prevenir esse risco? O que já vem sendo feito para ajudá-los? Dado os recursos de que dispomos, isso é uma maneira eficiente de reduzir o sofrimento no mundo no futuro?
“Razões para ajudar” discute todas essas questões e muitas outras relacionadas, fazendo uma análise detalhada e ao mesmo tempo clara e objetiva de cada tópico. Por essa razão, poderá ser útil tanto para especialistas quanto para o público em geral.
Sobre o autor:
Luciano Carlos Cunha é Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), coordenador geral das atividades da ONG Ética Animal no Brasil (www.animal-ethics.org/pt). Além de Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas, escreveu também Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Também escreveu capítulos em outras obras e publicou vários artigos que podem ser acessados aqui.
Dados do livro:
Número de páginas: 323
Largura: 27 cm
Comprimento: 21 cm
Como adquirir:
O autor possui exemplares para venda, que podem ser adquiridos pelo WhatsApp (48) 99857-8996.
O livro também pode ser adquirido por meio do site da editora.
A seguir estão dois excertos do livro (o texto de apresentação e a introdução).
APRESENTAÇÃO
O que devemos fazer em relação à situação dos animais que vivem na natureza e enfrentam situações de fome, sede, doenças, parasitismo e desastres naturais? Uma posição comum é a de que não deveríamos fazer nada: deveríamos simplesmente “deixar a natureza seguir o seu curso”. Já outra posição defende que devemos ajudá-los apenas se os eventos que os prejudicam tiveram origem em práticas humanas. Outra, por sua vez, defende que deveríamos ajudá-los apenas se isso beneficiasse os humanos (por exemplo, vacinar os animais para proteger humanos do contágio) ou contribuísse para alcançar metas ambientalistas (como preservar espécies em risco de extinção). Contudo, nos últimos anos, uma proposta que vem sendo cada vez mais discutida é a de que deveriam ser pesquisadas maneiras de ajudar os animais selvagens por preocupação com o seu próprio bem, e não por preocupações indiretas antropocêntricas ou ambientalistas, e que isso deveria ser pesquisado independentemente de o dano ter se originado ou não de práticas humanas. O objetivo de tal proposta é pesquisar como ajudar os animais com segurança, de modo que o resultado em longo prazo seja melhor do que aquele decorrente de não ajudar (por exemplo, fazendo com que haja menos sofrimento e mortes prematuras ao longo do tempo).
Qual dessas posições deveríamos aceitar? Para responder a essa questão, este livro descreve como é a vida típica dos animais selvagens para, em seguida, discutir as implicações éticas decorrentes de sua situação.
Muitas pessoas acreditam que os animais selvagens são prejudicados significativamente apenas por práticas humanas. Reconhecem que, se os humanos pararem de prejudicá-los, haverá ocorrências esporádicas de sofrimento e de mortes prematuras em decorrência dos processos naturais. Mas acreditam que, na maioria dos casos, os animais terão vidas boas. Essa visão é conhecida como visão idílica da natureza e, infelizmente, é falsa. Os animais são prejudicados das mais diversas maneiras pelos processos naturais. Este livro inicia descrevendo como os animais são tipicamente afetados pelos processos naturais em uma diversidade de contextos, investigando se o que tende a prevalecer em suas vidas é o sofrimento ou o desfrute e também fazendo uma estimativa de quantos animais morrem prematuramente para cada animal que consegue sobreviver até à idade adulta.
A proposta de ajudar os animais vítimas dos processos naturais é frequentemente rejeitada apontando-se que ela estaria a cometer “o erro de intervir na natureza”, pois implica intervir tanto no território natural quanto em processos naturais. Contudo, a maior parte das pessoas aceita intervenções no território natural e em processos naturais quando o objetivo é ajudar humanos ou alcançar metas ambientalistas. Assim, é necessário perguntar: haveria alguma diferença moralmente relevante que tornaria correto intervir na natureza com objetivos antropocêntricos ou ambientalistas, e ao mesmo tempo tornaria errado intervir com o objetivo de fazer com que haja menos sofrimento e mortes prematuras dos seres sencientes em geral ao longo do tempo? Por essa razão, este livro também discute se devemos dar consideração moral aos animais não humanos e, em caso positivo, qual é o grau de consideração que deveriam receber.
Nos capítulos restantes, várias questões éticas são abordadas. Haveria um dever geral de não intervir na natureza? Danos naturais seriam neutros em termos de valor? Os animais selvagens teriam um direito de viverem sem interferência humana? A preocupação com o equilíbrio ecológico e com a biodiversidade poderia tornar errado ajudá-los? Somos moralmente responsáveis apenas por danos decorrentes de práticas humanas? A proposta de ajudar os animais selvagens é exigente demais? Qual é a força das razões para ajudar os animais nessas situações, em comparação a casos similares em que humanos são as vítimas? Qual é o tamanho da importância dessa questão, em comparação a outras questões também importantes? Qual é o tamanho do risco de, ao tentar ajudá-los, sem querer tornarmos o cenário ainda pior em longo prazo? O que é possível pesquisar para prevenir esse risco? O que já vem sendo feito para ajudá-los? O que mais poderia ser feito no futuro? Pesquisar sobre essa questão é uma maneira eficiente de reduzir o sofrimento no mundo, dados os recursos de que dispomos? Este livro discute todas essas questões e muitas outras relacionadas, tendo como objetivo oferecer uma análise detalhada e ao mesmo tempo clara e objetiva de cada tópico.
É animador perceber que nos últimos anos tem ocorrido um aumento considerável do reconhecimento da importância desse tema, demonstrado pelo aumento na quantidade de artigos e livros publicados sobre o assunto, bem como de eventos destinados a discutir essa questão. Cada vez mais pessoas reconhecem que nossas atitudes perante os animais não humanos em geral, e mais especificamente em relação aos animais que vivem na natureza, precisam ser revistas. Este livro tem como objetivo contribuir para esse debate. Acredito que mesmo quem a princípio não tem certeza sobre se concorda ou não com o que o livro propõe (e mesmo quem discorda) poderá, por meio dele, ter um acesso aos principais argumentos discutidos sobre esse tópico e reconhecer a relevância dessa questão.
INTRODUÇÃO
O que devemos fazer em relação à situação dos animais selvagens que vivem na natureza e são afetados por processos naturais, como fome, sede, doenças, desastres naturais e condições meteorológicas hostis? Uma posição bastante comum afirma que a resposta é: “nada; devemos deixar a natureza seguir o seu curso”. Contudo, como veremos a seguir, as razões endereçadas para tentar defender essa posição variam. Este livro discute se essas razões realmente fazem sentido, bem como oferece argumentos para pensarmos que essa posição está equivocada e que, pelo contrário, há fortes razões para se pesquisar maneiras seguras de ajudá-los, de modo que, ao longo do tempo, haja menos sofrimento e mortes prematuras.
Uma crença muito comum é a de que, se os humanos pararem de prejudicar os animais selvagens com suas práticas, as vidas dos animais serão geralmente minimamente significativas. As pessoas que mantêm essa crença normalmente reconhecem que, em decorrência dos processos naturais, ocorrerão episódios de sofrimento e de mortes prematuras. Contudo, acreditam que na grande maioria dos casos o resultado será os animais tendo vidas longas e positivas. Essa crença geralmente está na base da ideia de que nossa única obrigação em relação aos animais que vivem fora do controle humano é parar de prejudicá-los. Será verdadeira essa crença? O primeiro capítulo examinará em detalhes como os animais selvagens são tipicamente afetados pelos processos naturais.
Outra posição que por vezes é mantida é a de que, mesmo que os animais sejam altamente prejudicados pelos processos naturais, não há nenhuma razão para tentar ajudá-los, simplesmente porque o bem dos animais não humanos não importa diretamente. Essa posição defende que, em certos casos, deveríamos ajudar os animais, mas apenas porque fazê-lo poderia ajudar a alcançar outras metas, que não o próprio bem dos animais. Por exemplo, defenderia vaciná-los, mas apenas porque isso preveniria o contágio em humanos ou poderia ajudar a realizar alguma meta ambientalista (como a preservação de alguma espécie em risco de extinção ou alcançar o chamado “equilíbrio ecológico”). O segundo capítulo examinará a seguinte questão: os animais não humanos importam por si? Se sim, qual o grau de consideração que deveriam receber, em comparação à consideração devida a humanos?
Outra posição, por sua vez, reconhece que temos razões para aliviar o sofrimento dos animais, mas afirma que, diferentemente dos humanos, eles não seriam prejudicados com a morte (ou o seriam em menor grau). Essa posição defende que, por esse motivo, as mortes dos animais na natureza não levantam um problema ético tão grave. O terceiro capítulo discutirá se os animais não humanos são prejudicados com a morte e, em caso positivo, como medir o quão prejudicados são com ela.
Também há uma visão que reconhece que o bem dos animais importa, e reconhece que os animais são prejudicados com o sofrimento e com a morte, mas defende que não deveríamos ajudá-los quando são vítimas dos processos naturais. Essa visão afirma que devemos evitar prejudicá-los com nossas práticas e reparar danos causados por práticas humanas. Contudo, defende que, quando os animais são vítimas dos processos naturais, deveríamos “deixar a natureza seguir o seu curso”. Essa posição é defendida de várias maneiras. Uma delas afirma que os danos naturais são neutros em termos de valor (isto é, que não são algo negativo). Outra afirma que é o fato de os animais selvagens estarem em um território distinto do nosso aquilo que torna errado ajudá-los. Essas posições serão discutidas no quarto capítulo. Em outras vezes, é alegado que tentar ajudar os animais quando são vítimas dos processos naturais violaria alguma outra obrigação mais forte, que também teríamos para com os próprios animais. Um exemplo é afirmar que ajudá-los seria uma atitude antropocêntrica, ou que estaríamos a antropomorfizá-los, pensando equivocadamente que eles gostariam de ser ajudados, ou, ainda, que estaríamos violando algum direito que possuiriam, ao intervirmos em suas vidas. O quinto capítulo discutirá essas posições.
Uma posição diferente afirma que o que há de errado com a proposta de ajudar os animais vítimas dos processos naturais é que fazê-lo poderia contrariar metas ambientalistas. Segundo essa visão, o bem dos animais pode até importar em algum grau, mas importa menos do que metas como preservar espécies, manter os ecossistemas em certas configurações, deixar a natureza seguir o seu curso, ou garantir que haja um “equilíbrio ecológico”, mesmo que o resultado do alcance dessas metas ambientalistas seja um mundo com maior quantidade de sofrimento e de mortes prematuras ao longo do tempo. O sexto capítulo discutirá essa posição, e também examinará em que medida a proposta de ajudar os animais vítimas dos processos naturais realmente conflita com as metas ambientalistas.
Outra maneira de tentar fundamentar que não há obrigação de ajudar os animais quando são vítimas dos processos naturais é afirmar que somos moralmente responsáveis apenas por danos decorrentes de práticas humanas. As razões oferecidas em defesa dessa alegação são várias. Por vezes é defendido que somos moralmente responsáveis apenas por nossos atos e não por nossas omissões, e que os danos que os animais padecem em decorrência dos processos naturais são sempre resultado de nossas omissões. Em outras vezes, é defendido que a proposta de ajudar os animais selvagens é exigente demais e que, por isso, não temos obrigação alguma quanto a essa questão. Outro exemplo envolve defender que temos obrigação de ajudar apenas aqueles indivíduos com quem temos certas relações, e que não temos essas relações para com os animais selvagens. Todas essas posições e outras relacionadas serão discutidas no sétimo capítulo.
Outra das razões comumente oferecidas para “deixar a natureza seguir o seu curso” defende que tentar ajudar os animais pode ter resultados piores em longo prazo, que não conseguimos prever. A preocupação é a de que, ao tentar ajudar, poderíamos sem querer tornar as coisas ainda piores do que já são. Já outra posição reconhece que é possível pesquisar maneiras seguras de ajudar esses animais, mas defende que isso não seria a forma mais eficiente de aplicarmos nossos recursos, se nossa meta é tornar o mundo um lugar menos ruim. Em outras vezes é simplesmente alegado que não há o que se fazer em larga escala em relação a esse problema e que, portanto, deveríamos deixá-lo de lado. O oitavo capítulo discutirá todas essas questões. Por fim, o nono capítulo aborda alguns dilemas práticos específicos quanto a essa questão, bem como descreve algumas maneiras pelas quais os animais selvagens já vêm sendo ajudados.
Por Luciano Cunha
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