Como fazer o bem: uma conversa com o maior eticista do mundo

Resumo: Peter Singer reflete sobre a morte de Derek Parfit, fala sobre objetividade moral, malária, mudanças climáticas, riscos existenciais, e sobre melhorar o seu “recorde pessoal” ao ajudar os outros.

Peter Singer é frequentemente considerado um dos mais influentes e controversos especialistas em ética prática. O filósofo publicou muitos livros e artigos com argumentos duros mas extremamente lúcidos sobre a preocupação com o bem-estar dos animais da pecuária industrial, teorias sobre o que é ser uma pessoa, e sobre nossa obrigação moral face às pessoas que vivem na pobreza extrema. Recentemente, ele também se tornou uma das principais vozes no movimento do altruísmo eficaz, argumentando que deveríamos enfatizar muito mais o peso das evidências nos nossos esforços de caridade e altruísmo. Singer foi um dos primeiros membros da Giving What We Can, o que envolve assumir um compromisso público a doar 10% ou mais do seu rendimento para as organizações que mais ajudem os outros. Sua própria organização, The Life You Can Save, é responsável por disseminar informações sobre doações eficazes e mover milhões de dólares para organizações que são mais eficazes no combate aos problemas causados pela pobreza extrema.

Ele também foi amigo do famoso filósofo Derek Parfit, cujo recente falecimento, em Janeiro deste ano, deixou o mundo da filosofia de luto.

Recentemente, tive a honra de entrevistar o professor Singer sobre suas interações com Derek Parfit, suas opiniões sobre o que é certo se fazer, e sobre quais são seus “dilemas do bonde” [Pt: Problemas do trólei] favoritos.

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“O fio condutor de todo o meu trabalho é prevenir o sofrimento desnecessário” | Fotografia de Barbara Oehring

Linchuan Zhang: Acredito que o assunto mais oportuno para a conversa de agora é o recente falecimento do professor Derek Parfit, se você concordar. Sinto muito pela sua perda. O meu entendimento é que Derek Parfit não apenas foi um grande filósofo, mas também um bom amigo seu. Quais terão sido as maiores contribuições de Derek Parfit para a filosofia?

Peter Singer: Eu não fui tão próximo dele quanto outras pessoas que conheço, mas conheço-o há muito tempo — desde que eu era um estudante de pós-graduação e professor assistente em Oxford, no início dos anos 70 — e nós mantivemos o contato ao longo dos anos. Recentemente, nos reaproximamos porque me interessei muito pelos seus argumentos a favor do objetivismo na ética, o que me levou a editar o livro “Does Anything Really Matter: Essays on Parfit on Objectivity”, o que por sua vez levou Parfit a publicar a sua resposta a esses ensaios no terceiro volume de “On What Matters”, que acaba de ser lançado.

Linch: Como o professor Parfit influenciou as suas idéias e textos?

Singer: Oh, de muitas maneiras. Inicialmente, foi através da sua discussão do problema de definir o que seria uma população ótima [quanto à dimensão]. A primeira vez que tive contato com essa questão foi através de suas palestras em Oxford quando eu lá estudava. Esse problema me incomodava à altura e, apesar de tentar resolvê-lo algumas vezes, ainda continua a incomodar-me. E não sou o único: não conheço ninguém que tenha chegado a uma solução que não possua implicações profundamente problemáticas.

Parfit também teve uma influência direta ao encorajar-me a escrever uma das minhas primeiras publicações. Ele me ouviu apresentar um artigo respondendo ao argumento de “Consequences of Utilitarianism”, de D.H. Hodgson. Hodgson afirmou que o utilitarismo é auto-destrutivo e isso era, na época, visto como uma poderosa objeção. Parfit gostou da minha resposta, e encorajou-me a desenvolve-la em um ensaio intitulado Is Act-Utilitarianism Self-Defeating?, que foi publicado na revista Philosophical Review.

Há demasiados outros aspectos do pensamento e da escrita de Derek Parfit que me influenciaram para que os mencione todos, mas devo dizer que na maior parte da minha carreira filosófica aceitei a opinião de David Hume que as razões para ação devem começar de um desejo. Essa idéia se tornou cada vez mais desconfortável para mim, mas tive dificuldade em encontrar razões suficientemente embasadas para rejeitá-la. Então, li uma versão preliminar dos dois primeiros volumes de “On What Matters” e troquei brevemente alguns emails com Parfit, em um momento em que repensava minhas opiniões sobre se julgamentos normativos podem ser objetivamente verdadeiros. Isso me convenceu que tinha estado errado aquele tempo todo. Há razões objetivas para agir, e então também podem existir verdades éticas objetivas.

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“Li uma versão preliminar dos dois primeiros volumes de “On What Matters” e troquei brevemente alguns emails com Parfit, em um momento em que repensava minhas opiniões sobre se julgamentos normativos podem ser objetivamente verdadeiros. Isso me convenceu que tinha estado errado aquele tempo todo. Há razões objetivas para agir, e então também podem existir verdades éticas objetivas.”

Linch: Uau, o fato dessa ser uma mudança relativamente recente para si realmente me surpreende. Você (e, julgo eu, a maioria dos filósofos morais) diz acreditar que o certo e o errado são fatos objetivos acerca do mundo, ou seja, defendem o realismo moral. Entretanto, muitos dos meus amigos (incluindo pessoas que estão muito preocupadas em fazer o que está certo, e também pessoas do movimento do altruísmo eficaz) acreditam que a moralidade é mais subjetiva, variando conforme a cultura e o indivíduo, sendo portanto mais próxima de uma expressão de preferências. Você poderia apresentar um curto argumento em defesa do realismo moral, compreensível a pessoas que não conheçam a literatura acadêmica da área?

Singer: Não, essa é uma tarefa demasiadamente difícil. Os interessados podem ler “On What Matters“, do Parfit, ou então “The Point of View of the Universe“, de Katarzyna de Lazari-Radek e Peter Singer.

Linch: Você foi um dos primeiros membros da Giving What We Can [GWWC], um compromisso voluntário de doar 10% ou mais de seus rendimentos para as organizações que mais ajudam os outros (a GWWC já tem mais de 2700 membros). Você também fundou a The Life You Can Save [TLYCS], que apresenta um cálculo mais elaborado para determinar o quanto as pessoas nos países desenvolvidos deveriam doar para a redução da pobreza global, baseado em uma escala progressiva. Como você compara os dois compromissos? Se uma pessoa está tentando decidir entre assumir um dos compromissos ou o outro, quais são as principais ponderações que deveria fazer?

Singer: Ambas as organizações querem fazer o máximo possível para ajudar os outros, mas usam táticas um tanto diferentes para chegar lá. TLYCS está focada apenas em ajudar pessoas em extrema pobreza, enquanto que a GWWC é agora mais abrangente nas causas que recomenda. Para além disso, TLYCS busca uma audiência mais abrangente que a GWWC, e é portanto menos exigente. De fato, a TLYCS tem agora reduzido o papel do compromisso no seu trabalho. Apenas pede para que as pessoas comecem por doar uma quantia significativa, e então tentem superar isso no ano seguinte – é a psicologia do “recorde pessoal”: quer seja correndo ou então doando, tente superar o seu próprio recorde anterior.

Linch: Uma das críticas aos compromissos como o da GWWC advém do fato de que reduzem estritamente a flexibilidade futura (por exemplo, doar pode resultar em menos dinheiro para que eu comece projetos independentes, ou para trabalhar diretamente em uma organização sem fins lucrativos eficaz). Como posso equilibrar os claros benefícios de assumir publicamente um compromisso com ações futuras que considero moralmente boas (mas que meu ego, focado no imediato, pode encontrar desculpas para evitar) com as desvantagens de restringir as opções que terei no futuro, quando estiver melhor informado?

Singer: Como já disse, nem eu, nem a TLYCS, estamos realmente submetidos à idéia de um compromisso específico, e aquilo que você sugere é uma das razões para tanto. No entanto, a razão mais importante para reduzir a ênfase no compromisso é fazer com que seja o mais fácil possível as pessoas ajudarem quem está em pobreza extrema. O nosso palpite é que isso vai ter maior impacto a longo prazo.

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“[The Life You Can Save] pede para que as pessoas comecem por doar uma quantia significativa, e então tentem superar isso no ano seguinte — é a psicologia do “recorde pessoal”: quer seja correndo ou então doando, tente superar o seu próprio recorde anterior.” | Fotografia de Denise Applewhite

Linch: Suponha que eu aceite o argumento que existem claras razões tanto para assumir compromissos socialmente positivos, quanto para fazê-lo publicamente. Ainda assim, porque devo eu (ou um leitor hipotético do Huffington Post) assumir um compromisso compartilhado, ao invés de algo que é mais adaptado às minhas vontades e circunstâncias individuais?

Singer: Porque assumir um compromisso pode aumentar a chance de você doar uma quantia significativa, e de continuar a fazê-lo; além disso, o conhecimento de que muitas pessoas já assumiram esse compromisso aumenta a probabilidade de que outros doem também.

Linch: Você recentemente citou a última página do terceiro volume (ainda não publicado) do livro “On What Matters”, de Derek Parfit, da qual um excerto é reproduzido abaixo:

“O que mais importa agora é como respondemos a vários riscos à sobrevivência da humanidade. Nós estamos criando alguns desses riscos e descobrindo como podemos responder a esses e outros mais. Se os reduzimos, e a humanidade sobrevive por mais alguns séculos, nossos descendentes ou sucessores podem eliminar esses riscos ao se espalharem por essa galáxia.

A vida tanto pode ser maravilhosa como terrível, e vamos ter, cada vez mais, o poder de torná-la boa. Dado que a história humana mal pode ter começado, podemos esperar que os seres humanos do futuro, ou os supra-humanos, possam alcançar alguns bens grandiosos que agora não podemos sequer imaginar. Nas palavras de Nietzsche, nunca houve uma aurora tão nova e um horizonte tão claro, nem um mar tão aberto.”

Quais causas você considera serem as mais importantes para se trabalhar nesse momento? Você concorda com Parfit que o mais importante nesse momento são os riscos existenciais e catastróficos da humanidade? Ou você acredita que há outros problemas ainda mais importantes?

Singer: Se devemos ou não dar máxima prioridade à redução de riscos existenciais depende da probabilidade que temos de reduzi-los, e do quanto devemos considerar o bem-estar de pessoas futuras que podem nunca vir a existir. Eu acredito que é bom trabalhar na redução de riscos existenciais, mas neste momento não estou preparado para dizer que é a coisa mais importante em que se deva trabalhar.

Linch: Um dos seus maiores focos enquanto figura pública consiste em enfatizar os danos causados pelas mudanças climáticas e a necessidade de se fazer algo em relação a isso. Eu imagino que essa não é uma questão que você ouve fora da comunidade do altruísmo eficaz, mas: qual é a razão para colocar ênfase nas mudanças climáticas? Como forma de verificação, dependendo de várias estimativas, as mudanças climáticas matam entre 150 e 400 mil pessoas por ano, e as projeções são de que esse número se aproxime de 600 mil em 2030. Sem dúvida, isso é extremamente horrível. No entanto, ao mesmo tempo, praticamente o mesmo número de pessoas morre por causa da malária todos os anos, ao passo que as mudanças climáticas recebem muito mais atenção, e parecem mais difíceis de resolver. Em termos de utilidade marginal, por que deveria um aspirante ao altruísmo eficaz ou um leitor do Huffington Post preocupar-se em reduzir os problemas devidos às mudanças climáticas em detrimento da malária, ou ainda de outras áreas altamente negligenciadas?

Singer: O número de pessoas que morrem por causa de malária está, felizmente, diminuindo, ao passo que o número de pessoas que morrem por causa das mudanças climáticas está, infelizmente, crescendo. A situação pode piorar muito depois de 2030, sendo que nas próximas décadas, o número de mortos ou refugiados pode chegar às dezenas ou mesmo centenas de milhões. Essa é a razão mais importante para se prestar atenção às mudanças climáticas.

Linch: Um dos meus artigos favoritos de 2015 foi o “The Possibility of An Ongoing Moral Catastrophe” de Evan G. Williams, que, para mim, argumentou de maneira convincente que (caso o realismo moral esteja de fato correto) estamos com quase toda certeza, nesse momento, cometendo graves erros morais dos quais sequer temos noção. Quais lhe parecem ser as candidatas mais prováveis para Catástrofes Morais em Curso das quais não estamos cientes atualmente?

Singer:

  1. A negligência, por parte das pessoas ricas, quanto às necessidades daqueles que vivem na pobreza extrema.
  2. A adoção contínua de um estilo de vida que, ao queimar combustíveis fósseis e comer a carne de animais ruminantes, contribui para as mudanças climáticas.
  3. A pecuária industrial, que inflige sofrimento a 65 bilhões [Pt: 65 milhares de milhões] de animais a cada ano.

Linch: Quais são algumas das mais importantes causas, estratégias ou intervenções que você considera ausentes ou negligenciadas no movimento do altruísmo eficaz?

Singer: 🙂 Se eu as conhecesse, estaria prestando mais atenção a elas através da The Life You Can Save, que ajudei a fundar.

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Catástrofes morais atuais incluem: “1. A negligência, por parte das pessoas ricas, quanto às necessidades daqueles que vivem na pobreza extrema. 2. A adoção contínua de um estilo de vida que, ao queimar combustíveis fósseis e comer a carne de animais ruminantes, contribui para as mudanças climáticas. 3. A pecuária industrial, que inflige sofrimento a 65 bilhões [Pt: 65 milhares de milhões] de animais a cada ano.” | Fotografia de Tony Phillips

Linch: Agora para falar de coisas menos sérias, qual é a sua variação favorita do dilema do bonde [Pt: problema do trólei]?

Singer: A variedade do circuito, porque mostra que a preferência da maioria das pessoas pela Alavanca em vez da Ponte pedonal não está baseada na distinção entre matar alguém como um meio ou matar alguém como um efeito colateral indesejado.

Linch: Que livro, ou artigo, ou argumento você desejaria ter tomado conhecimento há 10 anos atrás?

Singer: Não tenho certeza. “On What Matters” do Parfit é um forte candidato, apesar de que eu provavelmente já tivesse visto um rascunho da obra há 10 anos atrás.

Linch: Qual conselho específico e não trivial você daria a alguém interessado em entender suas idéias a respeito da ética prática (ou talvez em desenvolver suas próprias ídéias)?

Singer: O fio condutor de todo o meu trabalho é prevenir o sofrimento desnecessário. Talvez as pessoas possam pensar em outras maneiras de fazê-lo que nunca considerei.

Linch: Para fechar: você possui alguma reflexão para os nossos leitores?

Singer: Faça o maior bem que puder; o mundo será melhor por causa disso, e a sua vida também será mais recompensadora para si próprio.

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O autor gostaria de agradecer a Isaac Murtha, JP Addison, e especialmente a Aaron Thoma pela ajuda com as versões anteriores dessa entrevista.

Peter Singer é um dos filósofos mais eminentes do mundo. Se você gostou dessa entrevista, pode comprar um de seus livros na Amazon, ou ler essa compilação online de seus ensaios.

Se você está interessado em tomar ações práticas para melhorar o mundo com suas doações, considere aprender mais sobre a Giving What We Can, ou a organização de Peter Singer, a The Life You Can Save.

Todas as hiperligações foram acrescentadas pelo autor e não são necessariamente corroboradas pelo professor Singer.

Entrevista por Linchuan Zhang publicada originalmente no Huffington Post em 17 de março de 2017.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

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