Plantar Sementes: O Impacto da Dieta e de Diferentes Tácticas de Defesa dos Animais

Por Andrea Polanco (Faunalytics)

 

ajudarAnimais.fx

Como ajudar os animais eficazmente? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

 

O nosso último estudo original analisa a eficácia relativa de diferentes tácticas de defesa dos animais e o sucesso de cada uma delas, tanto a curto como a longo prazo.

Descarregar o PDF 

Para leer este estudio en español, haz clic aquí.

Principais conclusões

Estudo Retrospectivo

A experiência

Conclusões gerais

Materiais Suplementares

Principais conclusões

Antecedentes

Existem muitas abordagens diferentes de defesa dos animais dentro do movimento de protecção dos animais, desde falar com pessoas que conhecemos sobre o sofrimento dos animais, até à partilha de posts nas redes sociais e até a manifestações de protesto em espaços públicos. Actualmente, não compreendemos totalmente como estas abordagens afectam os comportamentos, as crenças e as atitudes das pessoas em relação aos animais da pecuária, ou mesmo até que ponto serão comuns.

Realizámos dois estudos nos EUA para abordar este tópico da forma mais completa e precisa possível. O primeiro foi um estudo retrospectivo. Explorou as experiências das pessoas com diferentes tipos de defesa dos animais, nos últimos cinco anos, e mediu os seus comportamentos e atitudes actuais. Isto diz-nos em que medida a defesa dos animais será frequente da perspectiva de uma pessoa comum e se o facto de já terem sido alvo da defesa dos animais está associado a mudanças positivas de comportamento e atitude, a longo prazo, relativamente aos animais da pecuária. Contudo, não podemos necessariamente assumir que a defesa dos animais tenha causado esses comportamentos e atitudes a partir de um estudo como este. Para avaliar as percepções das pessoas sobre o que é mais impactante, também lhes perguntámos directamente se a sua experiência mais recente com a defesa dos animais mudou algum dos seus comportamentos.

O segundo estudo foi uma experiência, que nos permite estarmos mais seguros sobre a direcção causal (isto é, se a defesa dos animais causou mudanças comportamentais e atitudinais ou, em vez disso, se as pessoas com comportamentos ou atitudes pró-animais procuraram essa defesa). Aí investigámos o impacto de muitos tipos de defesa dos animais contra uma condição de controlo sobre os comportamentos e atitudes imediatas das pessoas em relação aos animais da pecuária.

O objectivo final deste projecto foi o de calcular o sucesso de cada tipo de defesa dos animais tanto a curto como a longo prazo. Embora o estudo retrospectivo nos dê informações esclarecedoras sobre o que as pessoas pensam que as levou a mudar o seu comportamento e nos permita considerar uma gama mais ampla de tipos de defesa dos animais, a experiência realizada fornece provas mais fortes de que a defesa dos animais muda realmente o comportamento, num cenário controlado com menos oportunidades de enviesamento.

Principais conclusões

  1. As notícias e os posts nas redes sociais reduziram o consumo auto-relatado de produtos de origem animal no caso de pessoas que se identificam como parte de um grupo que evita a carne, mas não para quem come carne regularmente (omnívoros). Quem evita comer carne (reducitarianos, pescetarianos e vegetarianos) comeram menos 1,3 a 2,3 porções semanais de produtos animais depois de lerem um post nas redes sociais ou uma notícia sobre o bem-estar dos animais da pecuária em comparação com os do grupo de controlo. As dietas de quem come carne não foram afectadas por estas formas de defesa dos animais.
  2. As manifestações de protesto mostraram efeitos inconsistentes, mas preocupantes e contraproducentes, tanto para quem come carne como para quem a evita, com as manifestações de protesto perturbadoras a causarem mais problemas. Em média, quem come carne relatou mais 0,6 porções semanais de produtos animais depois de assistir a uma manifestação de protesto perturbadora em comparação com os do grupo de controlo. Nem as manifestações de protesto perturbadoras nem as não perturbadoras tiveram qualquer efeito no apoio geral de quem come carne face ao bem-estar dos animais da pecuária ou face à vontade de assinarem uma petição de bem-estar animal. Além disso, enquanto que os que evitam a carne tendem a apoiar mais as melhorias do bem-estar animal (71% no grupo de controlo assinaram uma petição de bem-estar animal), um número significativamente menor de pessoas que evitam carne (44% a 50%) assinaram a petição depois de assistirem a uma manifestação de protesto perturbadora ou não perturbadora. As manifestações de protesto também não tiveram qualquer efeito nas dietas dos que evitam a carne ou no apoio geral ao bem-estar dos animais da pecuária. Discutimos as possíveis razões para os efeitos contraproducentes na secção Conclusões Gerais do relatório.
  3. O facto de alguém comer ou evitar comer carne também influencia a forma como responde à defesa dos animais, o que por sua vez prevê a sua probabilidade de assumir um compromisso de dieta e de assinar uma petição. Como era de esperar, quem come carne tem mais probabilidades do que quem a evita de se zangar como resposta à defesa dos animais, de a verem como mais condescendente e enganadora, e menos clara, motivadora e informativa. Por sua vez, as pessoas que reagem mais negativamente são as menos propensas a assinar uma petição de apoio à melhoria do bem-estar dos animais e a assumir um compromisso de dieta. Veja a Recomendação n.º 6 sobre a forma como os defensores dos animais podem considerar essas reacções ao conceberem as suas tácticas de defesa dos animais.
  4. A informação educacional sobre rótulos de bem-estar animal não mudou as intenções das pessoas de comprar produtos de origem animal com ou sem um rótulo de bem-estar animal. Tínhamos suspeitas de que a informação educativa sobre o significado dos rótulos de bem-estar animal poderia aumentar as intenções de compra de produtos que os apresentassem e diminuir as intenções de compra para os que não os apresentassem. Contudo, as intenções de compra de quem come carne e de quem a evita, quando lêem a informação educacional, não foram diferentes das do grupo de controlo.
  5. O apoio das pessoas para assinar uma petição de bem-estar animal foi influenciado pelas espécies visadas. Os participantes eram menos propensos a assinar uma petição de apoio à melhoria do bem-estar dos peixes (45% dos participantes na situação dos peixes) do que uma petição sobre animais da pecuária em geral (52% dos participantes na situação de vários animais da pecuária).
  6. 41% dos indivíduos que tinham sido confrontados com a defesa dos animais afirmou que isso os influenciou a reduzirem o seu consumo de produtos de origem animal, com percentagens entre os 24% para a influência de celebridades e os 72% para a leitura de um livro sobre sofrimento animal. Houve alegações com percentagens igualmente elevadas e amplas variações percentuais para outros efeitos. Em geral, livros, desafios para uma dieta sem carne, educação nas salas de aula e documentários pareciam ser mais eficazes, tendo por base os relatos pessoais. Contudo, é provável que estas percentagens sejam substancialmente inflacionadas porque os participantes tiveram de se lembrar das suas experiências com a defesa dos animais para relatar os seus efeitos. No caso de experiências como livros e desafios, as percentagens podem também ser mais elevadas porque as pessoas têm de optar por envolver-se com estes (ver o separador Conclusões no Estudo 1). Estes resultados são muito úteis para fornecer uma ideia aproximada da eficácia relativa de diferentes tácticas de defesa dos animais em circunstâncias ideais com um público empenhado.
  7. Diferentes métodos de defesa dos animais foram igualmente eficazes nos diferentes grupos raciais e étnicos, mas algumas diferenças de base apontam para a necessidade de uma compreensão mais profunda. A experiência que realizamos não encontrou provas de que a eficácia relativa dos diferentes métodos de defesa dos animais fosse diferente para as pessoas negras que participaram (n = 170 participantes) ou as hispânicas/latinas (n = 180), pelo que as recomendações abaixo também se aplicam aos defensores dos animais que trabalham nessas comunidades. No entanto, os defensores dos animais devem ter em mente algumas diferenças de base: as pessoas hispânicas ou latinas que participaram mostraram vários comportamentos e atitudes mais pró-animais do que a média geral, enquanto as negras mostraram menos. Contudo, ambos os grupos comeram uma quantidade semelhante de produtos de origem animal como a amostra global. Estes resultados sugerem diferenças nos desafios, constrangimentos e oportunidades de acordo com a composição da comunidade, mas por favor veja as Conclusões Gerais para implicações mais detalhadas.

Recomendações 

Para o conjunto completo de recomendações relativas às diferentes formas de defesa dos animais, consulte o Quadro 7 no separador Conclusões Globais.

  1. Os resultados deste projecto apoiam principalmente a utilização de duas formas de defesa dos animais: os posts nas redes sociais e as notícias. Os posts nas redes sociais e as notícias reduziram efectivamente o consumo de produtos de origem animal auto-relatados em quem come carne e não tiveram efeitos nocivos em quem evita comer carne. São também mais fáceis de implementar e têm um custo inferior ao de muitas outras estratégias, assim recomendamos incondicionalmente a sua utilização. Caso isso diminua os custos, as organizações poderão também considerar a possibilidade de direccionar posts visando reducitarianos e vegetarianos, em vez de tentar persuadir o público em geral.
  2. Também recomendamos formas de defesa dos animais que foram descritas como formas de mudança de comportamento por pessoas no Estudo 1 e que foram apoiadas por provas causais noutras experiências: educação nas salas de aula e desafios de dieta sem carne. Respectivamente 58% e 63% dos nossos participantes que tinham tido experiências com estas formas de defesa dos animais relataram um consumo reduzido de produtos de origem animal, e outras investigações apoiam esta alegação (ver a secção Conclusões Gerais).
  3. Recomendamos pouco as formas de defesa dos animais que tiveram um impacto positivo nas intenções ou crenças de quem come carne, mas que não tiveram impacto no comportamento: vídeos violentos, folhetos, vídeos não violentos e celebridades. A experiência que realizamos não encontrou qualquer impacto destas formas de defesa dos animais sobre os comportamentos, o que é uma desvantagem substancial. No entanto, se puderem ser feitas de forma custo-eficaz, influenciando as intenções ou crenças de quem come carne, pode também ser útil, na medida em que os aproxima mais um passo da mudança de comportamento. O impacto destes tipos de defesa dos animais nas intenções e crenças de quem come carne variou, assim sendo, não há aqui espaço suficiente para os abordar de forma adequada. Para mais informações, consulte a secção Conclusões Gerais.
  4. Recomendamos cautela quanto à utilização de tipos de defesa dos animais que não tenham sido apoiados por dados experimentais: informação educacional sobre rótulos de bem-estar animal, documentários e painéis publicitários. A investigação experimental limitada até à data sugere que estes tipos de defesa dos animais não têm impacto nos comportamentos das pessoas, com algumas provas a sugerir um impacto positivo nas intenções apenas para documentários e informação educacional. Mas encorajamos investigação experimental adicional para estes três tipos de defesa dos animais, uma vez que a nossa cautela se baseia na investigação limitada.
  5. As provas limitadas dos nossos dois estudos sugerem que as manifestações de protesto não são úteis e podem, em alguns casos, causar danos. Embora seja importante notar que os nossos dois estudos não fornecem provas definitivas da ineficácia das manifestações de protesto por qualquer meio (e não conhecemos nenhuma outra investigação experimental que os analise), a experiência que realizamos descobriu que as manifestações de protesto perturbadoras aumentaram o consumo de produtos de origem animal segundo os relatos de quem come carne, enquanto que tanto as manifestações de protesto perturbadoras como as não perturbadoras resultaram em menos assinaturas de petições para reformas do bem-estar animal naqueles que evitam comer carne. A acumulação de provas até à data — que é mínima e beneficiaria de mais estudos — leva-nos a acreditar que o seu impacto é neutro na melhor das hipóteses, ou negativo na pior das hipóteses.
  6. Os defensores dos animais podem assegurar que os seus materiais de defesa dos animais, de qualquer tipo, são tão impactantes quanto o possível, testando a forma como as pessoas lhes respondem. Especificamente, os defensores dos animais devem esforçar-se por tornar os seus materiais informativos, envolventes e claros sobre a mudança de comportamento que sugerem, uma vez que todas estas características estavam ligadas à questão de assumir um compromisso de dieta e à questão de apoiar melhorias de bem-estar. Ao mesmo tempo, os defensores dos animais devem procurar minimizar as percepções dos seus materiais como sendo enganadores, condescendentes e irritantes, uma vez que essas respostas fizeram com que as pessoas se tornassem menos dispostas a envolver-se em comportamentos pró-animais. Para apoiar este tipo de testes, incluímos um inquérito simples e instruções de utilização no separador de Materiais Suplementares.
  7. As provas fortes sobre o impacto dos diferentes tipos de defesa dos animais são ainda muito limitadas, pelo que é necessário mais investigação antes de se proceder a grandes mudanças nas estratégias de campanha ou de financiamento. Ao longo do relatório, colocámos mais peso nas provas de mudança de comportamento versus intenções ou crenças, mas recomendamos que os defensores dos animais e os financiadores continuem a apoiar e a estudar os tipos de defesa dos animais que têm um impacto positivo nas intenções ou crenças, e continuem a estudar todos os tipos de defesa dos animais, mesmo aqueles que parecem ter implicações negativas nesta investigação. A mudança de comportamento ocorre por fases, pelo que os tipos de defesa dos animais que apenas influenciaram crenças ou intenções podem ainda desempenhar um papel numa longa linha de passos em direcção à mudança de comportamento. E embora nos tenhamos esforçado por fornecer recomendações que se pudessem utilizar sobre todos os tipos de defesa dos animais que considerámos, é necessário ter em mente que cada estudo tem as suas limitações, e nenhum relatório deve ser tomado como prova definitiva de impacto.

Equipa de investigação

Estamos gratos a muitas pessoas pelo seu apoio e assistência a este projecto. Gostaríamos de agradecer aos voluntários da Faunalytics, Jennifer St. Onge e Clara Sanchez, bem como ao antigo investigador da Faunalytics, Tom Beggs, pelo seu trabalho na concepção do estudo, e aos muitos indivíduos e organizações que analisaram o estudo e deram o seu feedback: a equipa Beyond Carnism, Daisy Freund e Melissa Thibault (ASPCA), Janosch Linkersdörfer (Humane League Labs), Meghan Lowery (Fundação Greenbaum) e David Meyer (Food Systems Research Fund). Agradecimentos especiais a Ande Reisman e à EBDI Consulting pela sua análise perspicaz e assistência com os resultados seleccionados. Estamos também muito gratos à Fundação Greenbaum pelo financiamento desta investigação. Finalmente, agradecemos a todos os nossos inquiridos pelo seu tempo e esforço.

Resumo do Método

Tipos de defesa dos animais

Todas as experiências de defesa dos animais que investigámos tinham como mensagem central o sofrimento dos animais da pecuária ou a redução da carne, mas variaram na sua abordagem. No nosso estudo, mantivemos este objectivo de forma tão consistente quanto possível para maximizar a possibilidade de comparação entre as condições experimentais.

Pode ver-se uma lista dos tipos de defesa dos animais estudados no Quadro 1, onde também indicamos quais foram os estudos em que foram incluídos. É de notar que os rótulos vegano/à base de plantas nos produtos alimentares foram incluídos no primeiro estudo para avaliar a frequência e o impacto de uma experiência que poderia aumentar um mínimo de sensibilização para as questões de bem-estar animal e deveria ser relativamente comum. Embora não o consideremos uma defesa dos animais no sentido comum, ajuda a contextualizar os outros resultados.

Nem todas as formas de defesa dos animais do nosso primeiro estudo poderiam ser testadas experimentalmente no nosso segundo estudo por razões logísticas. Especificamente, os documentários, a divulgação entre pares, a educação nas salas de aula, os desafios de dietas sem carne e os livros não eram viáveis numa curta experiência on-line. Por conseguinte, fizemos referência a outras pesquisas experimentais que se concentraram especificamente nestes tipos de defesa dos animais ao fazer as nossas recomendações acima e nas Conclusões Globais.

Quadro 1. Tipos de Defesa dos Animais Incluído

Screenshot 2022-07-11 at 11-01-40 2021-2022

Todos os materiais utilizados nesta investigação estão disponíveis no Open Science Framework, tanto para o nosso estudo retrospectivo como para a experiência que realizamos.


Publicado originalmente por Andrea Polanco na Faunalytics, a 27 de Abril de 2022.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s