Discordar daquilo que é eficaz não é discordar do altruísmo eficaz

Por Robert Wiblin (EA Forum — 2015) 

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Discordo do Altruísmo Eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Gahan N Rao)

Ultimamente tenho tido a experiência insólita de ler supostas “refutações” do altruísmo eficaz que apenas dizem uma série de coisas com as quais eu e a maioria dos meus colegas concordamos. Como somos algumas das pessoas mais envolvidas no movimento do altruísmo eficaz isto é, no mínimo, estranho.

O que está a acontecer aqui é que o altruísmo eficaz é tanto uma ideia central restrita, como uma série de ideias associadas. Acontece que algumas dessas ideias associadas acabam por ser amplamente aceites por pessoas que se descrevem como altruístas eficazes – outras nem sequer cumprem esse critério.

Qual é a ideia central?

  • O altruísmo eficaz é o uso de provas e investigação para levar a cabo acções que ajudem os outros o máximo possível.

Muitos dos meus colegas gostariam de acrescentar aqui que se “deve” usar provas e a razão para ajudar os outros o máximo possível. Mas não há consenso sobre se o envolvimento no “altruísmo eficaz” é um dever moral, ou apenas algo com que nos devemos entusiasmar porque nos preocupamos com os outros.

E quanto às ideias associadas? Poderia enumerar dúzias delas, mas algumas são as seguintes:

  • É altamente eficaz doar às instituições de caridade recomendadas pela GiveWell;
  • Os ensaios controlados aleatórios são uma óptima maneira de descobrir o que funciona no domínio do desenvolvimento;
  • O bem-estar animal é algo importante que nos deve preocupar;
  • Os seres humanos correm um sério risco face a uma catástrofe terrível no próximo século;
  • Ganhar muito dinheiro e doá-lo é um bom plano de carreira;
  • E muitas outras.

Agora, repare que nenhuma destas está inevitavelmente interligada à ideia central.

Pode-se facilmente pensar que se deve usar provas e investigação para levar a cabo acções  que ajudem os outros o máximo possível, e pensar que as instituições de caridade recomendadas pela GiveWell não prestam para nada. Ou então querer fazer o maior bem possível, mas pensar que está provado que os ensaios controlados aleatórios são demasiado caros para justificar o seu custo na maior parte das vezes.

Embora eu tenha uma paixão por ajudar os outros o máximo possível, pessoalmente já não faço doações às instituições de caridade recomendadas pela GiveWell, porque me parece que estão a ser descobertas opções melhores, por exemplo, pelo projecto congénere da GiveWell, o Open Philanthropy.

Isso significa que não concordo com o “altruísmo eficaz“? Não.

Muitos vegetarianos gostam de couves, mas só porque não se gosta de couves não significa que se coma carne.

Da mesma forma, posso pensar que certo artigo científico chegou à conclusão errada, sem discordar do objectivo de expandir a nossa compreensão do mundo natural, e muito menos discordar do método científico.

O que torna isto ainda pior é que muitas das afirmações atribuídas a altruístas eficazes nem sequer são assim tão amplamente defendidas.

Os altruístas eficazes são frequentemente referidos como alguém que acredita que só é uma boa ideia doar às clássicas instituições de caridade da GiveWell que são “comprovadas”, “escaláveis” e “transparentes”, ou que essas opções são muito mais eficazes do que tudo o resto. A minha experiência é que apenas cerca de 10 a 20% das pessoas que se identificam como altruístas eficazes realmente apoiam esta visão com alguma confiança – um subgrupo que durante algum tempo foi referido como “altruístas cépticos” pela sua insistência em provas empíricas de impacto especialmente robustas. A maioria está receptiva a que outras opções sejam tão eficazes como essas recomendações, ou melhores ainda.

Os altruístas eficazes são frequentemente referidos como sendo cépticos quanto a tentar “mudar o sistema”, mas uma votação rápida no grupo “Altruístas Eficazes” do Facebook – reconhecidamente uma amostra imperfeita – mostrou que a mudança sistémica foi na verdade mais popular do que qualquer uma das alternativas.

A 80.000 Hours é frequentemente referida por defender que “ganhar para doar” é claramente a melhor opção de carreira para a maioria. Uma análise rápida do nosso guia de carreiras mostrará que isso está longe de ser aquilo em que acreditamos, embora o mal-entendido seja em parte culpa nossa por não contrariarmos o suficiente a cobertura massiva do conceito de “ganhar para doar” por parte dos meios de comunicação.

Por isso, da próxima vez que alguma pessoa disser que não concorda com o altruísmo eficaz porque não concorda com uma conclusão muito específica, pode sossegá-la: provavelmente não discorda do “altruísmo eficaz”. Em vez disso, apenas discorda de alguns altruístas eficazes sobre como ajudar ao máximo os outros. Mas isso também é verdade para mim, e na realidade é verdade para todos. Se nunca discordássemos, nunca faríamos qualquer progresso para descobrir como agir da melhor forma! E como se demonstra acima, mesmo essa discordância pode ser ilusória.

Será que agora defini “altruísmo eficaz” como sendo tão óbvio que ninguém poderia contestá-lo? Acho a ideia de fazer o maior bem possível no mundo muito convincente. No entanto, muitas pessoas realmente discordam do conceito central! Algumas porque não acreditam que há um “certo e errado” e não estão pessoalmente entusiasmadas com a ideia de ajudar os outros. Algumas porque acreditam que tentar “maximizar” o quanto ajudamos os outros é a maneira errada de abordar o assunto. Algumas porque pensam que o uso de provas e investigação diminui a sua capacidade de realmente ajudar as pessoas através de uma relação afectiva e única com elas. Essas pessoas podem dizer correctamente que são indiferentes, ou que não gostam, do altruísmo eficaz.

 


Publicado inicialmente por Robert Wiblin no EA Forum, em 16 de Julho de 2015.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.


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