Por Gregory Lewis (EA Forum — 2020)

Resumo
As pragas ao longo da história indiciam o potencial que a biologia possui para causar uma catástrofe global. Este potencial aumenta a par e passo com a marcha do progresso biotecnológico. Os Riscos Biológicos Catastróficos Globais (RBCG) podem constituir uma parte significativa da totalidade dos riscos catastróficos globais e, se assim for, uma ameaça credível para a humanidade.
Apesar dos enormes esforços já existentes dirigidos a áreas relacionadas como a biodefesa e a saúde pública, os RBCG continuam a ser um grande desafio que, plausivelmente, é simultaneamente negligenciado e tratável. A gama de trabalho já existente muitas vezes ignora riscos desta magnitude, e em grande parte não se concentra nos mecanismos através dos quais é mais provável que tais desastres ocorram.
Muito permanece por esclarecer: os contornos dos cenários de risco, os melhores meios para ter impacto e para as pessoas poderem contribuir da melhor forma. Apesar destas incertezas, os RBCG são plausivelmente um dos desafios mais importantes que a humanidade enfrenta, e o trabalho para reduzir esses riscos é altamente valioso.
Depois de ler, também poderá gostar de ouvir a nossa entrevista em podcast com o autor sobre este artigo e a pandemia da COVID-19.
A nossa visão geral: Recomendado
Este é um dos problemas mais urgentes nos quais se pode trabalhar.
Escala
Pensamos que o trabalho para reduzir os riscos biológicos catastróficos globais tem um potencial de impacto positivo muito grande. Os RBCG são simultaneamente grandes desastres humanitários e ameaças credíveis para o futuro da humanidade a longo termo.
Negligência
Esta questão é de certa forma negligenciada. Os gastos actuais situam-se nos milhares de milhões [Br: bilhões] por ano, embora esta enorme quantia não esteja perfeitamente distribuída. A nossa estimativa aproximada ajustada em termos qualitativos atinge cerca de mil milhões [Br: 1 bilhão] de dólares por ano.
Solvabilidade
Fazer progressos na redução de riscos biológicos catastróficos globais parece ser um problema moderadamente tratável. As tentativas para complementar o grande portfólio de biossegurança pré-existente são bastante promissoras. Por um lado, parece haver uma série de vias pelas quais os riscos podem ser gradualmente reduzidos; por outro, a natureza multifactorial do desafio sugere que não haverá “soluções milagrosas” fáceis.
Em que se baseia a nossa análise?
Eu, Gregory Lewis, escrevi esta sinopse. Trabalho no Future of Humanity Institute em RBCG. A sinopse deve bastante a discussões úteis com (e comentários de) Christopher Bakerlee, Haydn Belfield, Elizabeth Cameron, Gigi Gronvall, David Manheim, Thomas McCarthy, Michael McClaren, Brenton Mayer, Michael Montague, Cassidy Nelson, Carl Shulman, Andrew Snyder-Beattie, Bridget Williams, Jaime Yassif e Claire Zabel. A sua amável ajuda não implica que concordem com tudo o que escrevo. Todos os erros continuam a ser meus.
Esta sinopse está dividida em três partes. Primeiro, explico o que são os RBCG e porque poderiam ser uma grande prioridade global. Em segundo lugar, apresento as minhas impressões (tais como elas são) face aos amplos contornos do cenário dos riscos e a melhor forma de lidar com esses riscos. Terceiro, tento traçar os melhores caminhos para orientar uma carreira de forma a reduzir este perigo.
Motivação
Quais são os riscos biológicos catastróficos globais?
Os riscos catastróficos globais (RCG) são definidos, grosso modo, como riscos que ameaçam causar grandes danos ao bem-estar humano a nível mundial, e colocam em risco a trajectória a longo termo da humanidade.[1] Os riscos existenciais são os riscos mais extremos deste tipo. Os riscos biológicos catastróficos globais (RBCG) são um conjunto de todo o tipo de risco que seja de natureza essencialmente biológica (por exemplo, uma grande pandemia).
Escrevo a partir de uma perspectiva essencialmente longotermista: em termos gerais, que há uma profunda importância moral na forma como será o futuro da humanidade, e por isso tentar fazer com que esse futuro seja melhor é um objectivo essencial na forma como tomamos decisões (recomendo particularmente a palestra de Joseph Carlsmith).[2] Ao aplicar esta perspectiva aos riscos biológicos, a questão de saber se um determinado evento ameaça a trajectória a longo termo da humanidade torna-se fundamental. Esta questão é muito mais difícil de julgar do que a questão se um determinado evento ameaça causar graves danos ao bem-estar humano a nível mundial. O minha suposição é que o ‘limiar’ para quando um evento biológico começa a ameaçar a civilização humana é alto: um indicador aproximado é um número de mortes de 10% da população humana, no limite superior de todas as catástrofes já observadas na história humana.
Como tal, acredito que algumas catástrofes biológicas, mesmo aquelas que são graves e de alcance global, não seriam RBCG. Um exemplo é a resistência antimicrobiana (RAM): A RAM causa grande sofrimento humano em todo o mundo, ameaça tornar-se um problema ainda maior e, no entanto, não acredito que seja um RBCG plausível. Uma tentativa de modelar o pior cenário da RAM sugere que mataria 100 milhões de pessoas em 35 anos e reduziria o PIB global em 2% a 3,5%.[3] Embora fosse desastroso para o bem-estar humano a nível mundial, não acredito que isso possa ameaçar o futuro da humanidade – quanto mais não seja, a maior parte do passado da humanidade ocorreu durante a “era pré-antibiótica”, à qual o pior cenário da RAM ameaça regressar.
Para ser claro, uma pandemia que matasse menos de 10% da população humana poderia facilmente ainda estar entre os piores eventos da história da nossa espécie. Por exemplo, a actual pandemia da COVID-19 já é uma crise humanitária e ameaça ficar muito pior, embora seja muito pouco provável que ameace a extinção de acordo com este limiar. Vale bem a pena investir uma grande quantidade de recursos para mitigar tais catástrofes e evitar que surjam mais.
A razão para nos centrar-mos aqui em eventos que matam uma fracção maior da população é, em primeiro lugar, que não são assim tão improváveis, em segundo lugar, que os danos que poderiam causar seriam ainda vastamente maiores – e potencialmente até mais duradouros.
Estas impressões têm uma influência muito forte na avaliação da importância dos RBCG em geral, e na escolha daquilo a que se deve dar prioridade em particular. Também são impressões altamente controversas: Pode-se acreditar que o “limiar” para quando um evento representa uma ameaça credível à civilização humana é ainda maior do que aquele que sugiro (e o risco de qualquer evento biológico atingir esse limiar é muito remoto). Por outro lado, pode-se acreditar que este limiar deve ser fixado num valor muito mais baixo (ou pelo menos definido com indicadores diferentes), pelo que um conjunto mais amplo ou diferente de riscos deve ser objecto de preocupação longotermista.[4] Sobre tudo isto, falo mais adiante.
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1. Diferentes tentativas para uma definição de R(B)CG apontam sensivelmente no mesmo sentido:
Bostrom e Cirkovic (2007):
“[RCG são um] risco que pode ter o potencial de infligir sérios danos ao bem-estar humano à escala global.”
Open Philanthropy Project:
“Usamos o termo “riscos catastróficos globais” para nos referirmos a riscos que podem ser globalmente desestabilizadores o suficiente para piorar permanentemente o futuro da humanidade ou levar à extinção humana.”
Schoch-Spana et al. (2017)
“A definição funcional de riscos biológicos catastróficos globais (RBCG) do Johns Hopkins Center for Health Security: aqueles eventos nos quais agentes biológicos – quer naturalmente emergentes ou reemergentes, deliberadamente criados e libertados, ou criados e libertados em laboratório – podem levar a uma catástrofe repentina, extraordinária e generalizada, superior à capacidade colectiva de controlo dos governos nacionais e internacionais e do sector privado. Se não fossem controlados, os RBCG levariam a grande sofrimento, perda de vidas e danos permanentes para governos nacionais, relações internacionais, economias, estabilidade social ou segurança global”. ↩︎
2. Para mais informações sobre o longotermismo, veja outros trabalhos da 80,000 Hours aqui. ︎↩︎
3. Embora a modelação (pela KPMG e pela RAND Europe) tenha sido concebida apenas para ilustrar um possível pior cenário, um “pior cenário” plausível da RAM é menos grave:
- O cenário Rand de todos os agentes patogénicos que atingem 100% de resistência a todos os antibióticos em 15 anos é implausível – muitos organismos mostram uma susceptibilidade persistente aos antimicrobianos utilizados contra si durante décadas.
- As hipóteses da KPMG de um aumento de 40% na resistência também parecem excessivamente pessimistas. Além disso, a suposição de que a resistência levaria a uma duplicação da transmissão parece improvável.
- A incidência de infecções mantém-se constante, enquanto que a maior parte da incidência de doenças infecciosas está em tendência decrescente, pouca da qual pode ser atribuída ao uso de antimicrobianos.
- Os mecanismos de resistência antimicrobiana geralmente implicam algum custo de aptidão para o patógeno.
- Nenhuma tentativa de mitigação ou resposta foi modelada (por exemplo, aumentando a investigação e desenvolvimento de antimicrobianos à medida que as taxas de resistência sobem). ↩︎
4. Por exemplo, Saskia Popescu escreveu um artigo sobre “A ameaça existencial da resistência antimicrobiana“, ilustrando que a resistência antimicrobiana invasiva pode agravar o perigo de um surto de gripe (normalmente, grandes proporções de mortes por gripe são devidas à infecção bacteriana secundária).
Uma explicação para esta aparente discordância é simplesmente que o significado de “ameaça existencial” de Popescu não é o mesmo que risco existencial (sob a perspectiva do longotermismo). No entanto, suspeito que ela (e estou confiante que outros também) discordariam da minha “exclusão” da RAM como um RBCG plausível. ↩︎
Publicado originalmente por Gregory Lewis no EA Forum, a 1 de Março de 2020.
Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.
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