Uma crítica ao altruísmo eficaz

Por Ben Kuhn (EA Forum – 2013)

CriticaAE

Altruísmo eficaz, qual a crítica a fazer? (Arte digital: José Oliveira | Foto: Zoltan Tasi / Unsplash)

 

Recentemente deparei-me com a ideia de Nick Bostrom de sujeitarmos as nossas crenças mais fortes a uma apostasia hipotética na qual tentamos reunir os argumentos mais fortes que possamos contra estas. Como já deve ter percebido, eu acredito firmemente no altruísmo eficaz — a ideia de aplicar provas e a razão para encontrar as melhores formas de melhorar o mundo. Como tal, pensei que seria produtivo escrever uma apostasia hipotética sobre o movimento do altruísmo eficaz.

(EDITADO: De acordo com os comentários de Vaniver, Carl Shulman e outros no Less Wrong, isto não resultou bem numa apostasia hipotética. Escrevi-a originalmente com isso em mente, mas decidi que concentrar-me em críticas mais plausíveis e mais moderadas seria mais produtivo).

Como ler este post

(EDITADO: os dois parágrafos seguintes foram escritos antes de suavizar o tom do artigo. São menos relevantes face à versão mais moderada que acabei por publicar).

Seria de esperar que isto fosse claro, mas aqui fica a advertência: este artigo está escrito num tom bastante crítico. O que fez parte da tentativa de “encarnar a personagem”. Este tom não representa o meu estado mental actual no que diz respeito ao movimento do altruísmo eficaz. Concordo, em diferentes graus, com algumas das críticas que apresento aqui, mas não estou prestes a desistir do altruísmo eficaz ou a deixar de cooperar com o movimento AE. A apostasia é puramente hipotética.

Além disso, devido à natureza de uma apostasia hipotética, suponho que, para leitores altruístas eficazes, o tom crítico deste texto pode ser especialmente susceptível de desencadear uma racionalização defensiva. Por favor, leia com isto em mente. (Uma boa maneira de contrariar este efeito pode ser, por exemplo, imaginar que não é um altruísta eficaz, mas que uma pessoa amiga sua o é, e é essa pessoa que está a ler isto: como deve essa pessoa actualizar as suas crenças?)

(Fim dos parágrafos menos relevantes.)

Finalmente, se nunca ouviu falar de altruísmo eficaz antes, não recomendo que faça deste artigo a sua primeira impressão! Vai ficar com uma visão muito distorcida porque eu não me dou ao trabalho de mencionar todas as coisas que são incríveis sobre o movimento AE.

Resumo

O altruísmo eficaz é, que eu saiba, a primeira vez que um conjunto substancialmente útil de princípios éticos e estruturas para analisar o efeito que cada um tem no mundo ganhou uma adesão suficientemente ampla para se assemelhar a um movimento social. (Diria que estes princípios são algo como altruísmo, maximização, igualitarismo e consequencialismo; juntos implicam muitas melhorias em relação ao padrão social de tentar fazer o bem no mundo — ganhar para doar por oposição a fazer trabalho de caridade directo, trabalhar no mundo em desenvolvimento em vez de trabalhar a nível local, utilizar provas e feedback para analisar a eficácia, etc.). Infelizmente, enquanto movimento o altruísmo eficaz está a falhar na utilização destes princípios para adquirir crenças não triviais correctas sobre como se pode melhorar o mundo.

A título de esclarecimento, considere a distinção entre dois sentidos da palavra “tentar” que utilizei acima. Vamos chamá-los de “realmente tentar” e “fingir que se tenta”. Fingir que se tenta melhorar o mundo é algo como responder à pressão social para melhorar o mundo, questionando o seu cérebro por algo que melhore o mundo, agarrando no primeiro resultado da pesquisa e deixar-se levar por ele. Por exemplo, durante algum tempo pensei que iria tentar melhorar o mundo desenvolvendo métodos computorizados para verificar provas escritas informalmente, permitindo assim um ensino mais escalável de matemática avançada, democratizando a educação, etc. Coincidentemente, a programação de computadores e a matemática avançada eram as duas coisas em que eu era melhor. Isto é fingir que se tenta. Tentar de verdade é olhar para as coisas que melhoram o mundo, descobrir qual delas maximiza a utilidade, e depois fazer essa coisa. Por exemplo, agora dirijo uma organização de estudantes de altruísmo eficaz em Harvard porque percebi que, embora eu seja um líder relativamente mau e não goste muito disso, ainda assim é altamente impactante se eu me esforçar o suficiente nisso. Isto não quer dizer que já esteja realmente a tentar, mas já me aproximei mais disso.

Utilizando esta distinção entre fingir e realmente tentar, resumiria muito do altruísmo eficaz como “fingir que realmente se está a tentar”. Enquanto grupo social, os altruístas eficazes já notaram com sucesso a distinção fingir/tentar de facto. Mas parecem ter parado por aí, assumindo que saber a diferença entre fingir que se tenta e tentar de facto se traduz na capacidade de se tentar de facto. Empiricamente, é certo que esse não é o caso. Muitos altruístas eficazes ainda acabam por agir satisfatoriamente — encontrando acções que são aceitáveis face aos padrões centrais do AE e depois escolhendo aquelas acções que parecem apelativas devido a outros factores essencialmente aleatórios. É mais provável que isto resulte em boas acções do que o que a sociedade faz tradicionalmente, porque os princípios são melhores do que os princípios tradicionais da sociedade. No entanto, não se consegue progredir muito em relação ao que é directamente óbvio a partir dos princípios básicos do AE. Como resultado, embora “fazer altruísmo eficaz” pareça uma procura pela verdade, muitas vezes acaba por ser apenas uma forma mais credível de fingir que se tenta.

De seguida, apresento várias formas pelas quais os altruístas eficazes não conseguiram ir para além do algoritmo do socialmente satisfatório de estabelecer algumas alternativas credivelmente aceitáveis e depois escolher entre estas com base em preferências essencialmente aleatórias. Exponho outras áreas onde as normas do altruísmo eficaz não conseguem evitar a cognição motivada. Tanto um fenómeno como o outro acrescentam ao consenso altruísta eficaz aquilo a que chamo de “inércia epistémica”: os altruístas eficazes tornam-se mais sujeitos a pressões sobre as suas crenças que não sejam as de um processo de procura da verdade, o que significa que o consenso AE se torna menos capaz de se actualizar perante novas provas ou argumentos e impedindo o movimento de avançar. Defendo que isso decorre da relutância dos altruístas eficazes em pensar em “ser um movimento social bem sucedido” em vez de “aplicar correctamente o utilitarismo a nível individual”. Isto poderia ser potencialmente resolvido pela introdução de um princípio adicional de altruísmo eficaz — por exemplo, “autoconsciência de grupo” — mas pode ser tarde demais para acrescentar coisas novas ao DNA do altruísmo eficaz.

Dificuldades filosóficas

Existe actualmente um amplo desacordo entre os altruístas eficazes sobre o enquadramento correcto da ética populacional. Isto é de importância crucial para determinar a melhor maneira de melhorar o mundo: uma ética populacional diferente pode levar a escolhas drasticamente diferentes (ou pelo menos assim seria de esperar a priori), e se o movimento AE não conseguir convergir pelo menos quanto aos seus objectivos instrumentais, irá rapidamente fragmentar-se e perder o seu poder. Contudo, tem havido poucos progressos no sentido de descobrir a ética populacional correcta (ou, de um ponto de vista moral anti-realista, construir argumentos que levem à convergência sobre uma determinada ética populacional), ou mesmo determinar qual o tipo de ética que leva ao tipo de intervenções que sejam melhores.

Más escolhas de causas

Muitos altruístas eficazes fazem doações para as principais instituições de caridade da GiveWell. Todas essas três instituições de caridade trabalham na saúde global. Será que isso é assim porque a GiveWell sabe que a saúde global é a causa com a maior influência? Não. É porque foi a única com dados suficientes sobre a qual se pode dizer algo de muito útil. Há poucos motivos para supor que isso está correlacionado com o facto de ser particularmente de alta influência — pelo contrário, argumentos heurísticos, mas menos rigorosos, para causas como a prevenção de riscos existenciais, a defesa do vegetarianismo e a abertura de fronteiras sugerem que estas poderiam ser ainda mais eficientes.

Para além disso, é provável que a nossa actual “intervenção mais conhecida” mude (numa direcção mais custo-eficaz) no futuro. Há aqui dois efeitos concorrentes: podemos descobrir melhores intervenções para onde doar do que aquelas que actualmente consideramos que são melhores, mas também podemos ficar sem oportunidades face à actual intervenção mais conhecida, e teremos de mudar para a segunda. Até agora parece que estamos num regime em que domina o primeiro efeito, e não há provas de que chegaremos a um ponto de viragem muito em breve, especialmente tendo em conta que o campo da investigação da caridade eficaz é tão recente.

Dadas estas considerações, é bastante surpreendente que os altruístas eficazes estejam a doar para causas de saúde global neste momento. Mesmo para aqueles que procuram usar as suas doações para dar o exemplo, um fundo aconselhado por doadores teria muitos dos benefícios e nenhuma das desvantagens. E de qualquer forma, doar quando se acredita que não é a melhor maneira de agir (excepto quando é uma forma de dar o exemplo) para defender a ideia de descobrir a melhor maneira de agir possível e depois fazer essa coisa, parece perverso.

Não-obviedade

Os altruístas eficazes muitas vezes  exprimem surpresa pelo facto de a ideia de altruísmo eficaz só ter surgido tão recentemente. Por exemplo, o meu grupo de estudantes recentemente recebeu Elie Hassenfeld para uma palestra na qual este fez comentários a esse respeito, e ouvi outras pessoas que trabalham em organizações AE expressarem o mesmo sentimento. Mas ninguém parece estar realmente preocupado com isso — exprimem apenas a presunção de terem descoberto algo que ninguém mais descobriu.

O “mercado” de ideias é pelo menos eficiente em certa medida: a maioria das coisas simples, óbvias e correctas são pensadas com bastante rapidez depois de ser possível pensar nelas. Se um meme tão simples como o altruísmo eficaz ainda não criou raízes, devemos pelo menos tentar entender porquê, antes de o apoiarmos incondicionalmente. A ausência de tais tentativas — noutras palavras, o facto da não-obviedade não fazer com que os altruístas eficazes se preocupem que algo lhes esteja a escapar — é um forte indicador contra a hipótese de que “os altruístas eficazes estão realmente a tentar”.

Mercados eficientes para doar

Afirma-se muitas vezes que “as organizações sem fins lucrativos não são um mercado para fazer o bem; são um mercado para as sensações de calor interior”. Isto é usado como justificação para que seja possível fazer uma imensa quantidade de bem através de doações. No entanto, embora seja certamente verdade que a maioria dos doadores não está explicitamente a tentar comprar utilidade, ainda assim há muito dinheiro que o faz.

A Fundação Gates é um exemplo de uma organização desse tipo. Têm a mente direccionada para a eficácia e contam com 60 mil milhões [BR: 60 bilhões] de dólares. A 80.000 Hours já observou que provavelmente já salvaram mais de 6 milhões de vidas apenas com os seus programas de vacinação — dado que gastaram uma parte relativamente pequena do seu património, devem estar a receber uma taxa de câmbio muito melhor do que as nossas melhores estimativas actuais.

Então por que não doar simplesmente à Fundação Gates? Os altruístas eficazes precisam de uma explicação melhor das “ineficiências do mercado” que estão a explorar e que Gates não está. Por que é que a Fundação Gates não financiou a Against Malaria Foundation, a principal instituição de caridade da GiveWell, quando esta está numa das suas principais áreas de investigação? Parece implausível que a resposta seja mera incompetência ou algo do género.

Uma regra básica dos mercados é que, quem não souber qual é a vantagem que possui, é um otário. Muitos altruístas eficazes, quando lhes perguntam qual é a vantagem que possuem, respondem algo do tipo “realmente ser estratégico/pensar sobre a utilidade/preocupação com os resultados”, e param de pensar aí. Este não é um argumento convincente: como referi anteriormente, não fica claro porque é que mais ninguém está a fazer essas coisas.

Atitude incoerente em relação ao rigor

Os altruístas eficazes insistem num rigor extraordinário nas suas recomendações de instituições de caridade — cf. por exemplo, o trabalho da GiveWell. No entanto, para muitos problemas associados — doar agora vs. mais tarde, escolher uma carreira, e decidir até que ponto ser “meta” (decidir entre trabalho directo, ganhar para doar, trabalhar em defesa de causas, e doar para a defesa de causas), para citar algumas — parecem felizes por escolherem entre as alternativas que não sejam obviamente erradas com base na intuição e no instinto.

Má compreensão psicológica

John Sturm sugere, e eu concordo, que muitas destas questões são de natureza psicológica: 

Parece-me que muitos destes problemas têm as suas raízes numa questão ao nível do compromisso:

Eu, por exemplo, estou entusiasmado por mudar a minha mentalidade em relação à caridade, não a minha mentalidade em relação a ter filhos. O meu pressentimento é que — de uma perspectiva ética geral e do AE — seria um grande erro para mim ter filhos (mesmo depois de levar em conta as desculpas normais do AE a propósito de fazer as coisas por mim mesmo). Pelo menos neste momento, porém, não me importo de ignorar a minha postura ética e o AE; quero ter filhos e pronto.

Neste caso não estou propriamente a “ser preguiçoso”, estou apenas a nem sequer tentar. Mas quando alguém me pergunta sobre isso, é mais fácil para mim dar alguma desculpa AE (do tipo, se tiver filhos irá fazer com que seja mais feliz e produtivo) que eu não acho que seja verdade — e aí parece que estou a ser um altruísta preguiçoso ou descuidado em vez de não ser sequer um altruísta.

O modelo que estou a construir é este: há muitas áreas diferentes na vida onde eu poderia aplicar o AE. Em algumas delas, estou disposto a isso de bom grado. Em algumas delas, eu não estou disposto a isso de todo. Depois há dois tipos de áreas onde parece que estou a ser um AE preguiçoso: aquelas onde estou disposto e quero ser um AE melhor… e aquelas onde não estou disposto, mas estou apenas a fingir (para mim mesmo ou para as outras pessoas ou as duas coisas).

O objectivo disto: quando pedimos a alguém para ser um AE menos preguiçoso, estamos (1) a ajudá-los a fazer um trabalho melhor em algo que querem fazer, e (2) a tentar levá-los a fazerem mais do que querem fazer ou a admitirem que são “maus”.

No geral, a maioria dos altruístas eficazes respondem a conflitos profundos entre o altruísmo eficaz e outros objectivos de uma das seguintes formas: 

  1. Inconscientemente, resolvem a dissonância cognitiva com raciocínio motivado: “é claramente a minha vantagem comparativa difundir o altruísmo eficaz através de poesia!”
  2. Deliberadamente e com conhecimento de causa, utilizam raciocínios motivados: “Caro grupo do Facebook, quais são os melhores argumentos utilitaristas a favor de uma pessoa se tornar um poeta AE?”
  3. Agarram-se à desculpa “honesta” mais fácil: “Eu não seria psicologicamente capaz de fazer altruísmo eficaz caso isso me obrigasse a ir para as finanças em vez de escrever poesia, portanto, em vez disso, vou tornar-me um poeta altruísta eficaz”.

A terceira é contestavelmente defensável — embora, para uma comunidade que se propõe a pôr em prática a racionalidade e o auto-aperfeiçoamento, os altruístas eficazes têm demonstrado, surpreendentemente, pouco interesse na auto-modificação para terem intenções mais altruístas. Isto parece obviamente digno de mais trabalho.

Para além disso, as normas do AE nem sequer proíbem as duas primeiras, levando a uma norma de grupo que não faz com que as pessoas percebam quando estão envolvidas numa determinada quantidade de cognição motivada. Isto é bastante tóxico no que respeita à capacidade do movimento de convergir para a verdade. (Como disse antes, os altruístas eficazes ainda assim são melhores do que a população no geral; os princípios centrais do AE são suficientemente fortes para fazer com que as pessoas percebam a cognição motivada mais óbvia que, obviamente, lhes passa ao lado. Mas isso está longe de ser suficientemente bom).

Analogias históricas

Com a excepção parcial da história do projecto de filantropia da GiveWell, não houve nenhuma investigação sobre boas visões externas na história. Embora não existam precursores directos do altruísmo eficaz (o que é preocupante em si mesmo; veja acima), existe um movimento notavelmente similar: o comunismo, onde teve origem a ideia “de cada qual, segundo a sua capacidade; a cada qual segundo as suas necessidades”. O comunismo também se notabilizou pelos seus vários fracassos abjectos. Os altruístas eficazes precisam de estar mais preocupados em como evitar os fracassos do mesmo tipo — e no geral precisam de estar mais conscientes das armadilhas, assim como dos benefícios, de ser um movimento social cada vez maior.

Aaron Tucker explica isso melhor do que eu:

Em particular, o Comunismo/Socialismo foi um movimento iniciado por filósofos, que depois foi continuado por tecnocratas, que pensavam que a razão e o planeamento poderiam tornar o mundo muito melhor, e que caso se coordenassem para tomar medidas para resolver tudo, poderiam eliminar a pobreza, as doenças, etc.

Marx percebeu totalmente, tanto quanto sei, a distinção entre “realmente tentar vs. fingir que se tenta” (“Os filósofos só explicaram o mundo, mas o verdadeiro problema é mudá-lo” é uma citação sua), e realmente posiciona-se fortemente contra as pessoas que tentam resolver as coisas irreflectidamente, de maneiras que façam sentido para a cultura de onde partem — o problema não é que a burguesia não esteja a tentar ajudar as pessoas, o problema é que a única concepção de ajuda que a burguesia tem seja uma concepção sobretudo epifenomenal para na prática melhorar as vidas do proletariado — dando-lhes coisas bonitas do tipo burguês, como educação e direito ao voto, mas sem fazer nada para melhorar as condições materiais da sua vida, ou resolver os problemas que levaram a que não tivessem essas coisas em primeiro lugar, e que não fossem eles mesmos a fazê-las.

Então, se Marx percebeu a distinção entre fingir/tentar realmente, e os seus seguidores tomaram conta de países, e tinham uma imensidão de tecnocratas incríveis, parece que essa era a situação perfeita para o AE, e falhou redondamente.

Monocultura

Os altruístas eficazes não são muito diversificados. A grande maioria é branca, de “classe média-alta”, com propensão intelectual e filosófica, de um país desenvolvido, etc. (e acho que também é significativamente masculina, embora tenha menos certeza disso). E por mais que, neste momento, o argumento das múltiplas perspectivas em defesa da diversidade se tenha vulgarizado parece bastante pertinente, especialmente quando se considera, por exemplo, as intervenções globais de saúde, cujos beneficiários são culturalmente bastante estranhos para nós.

Os altruístas eficazes também não estão muito conscientes de questões humanísticas. O AE teve origem na filosofia analítica e propagou-se a partir daí para a matemática e para a informática. Por isso, são demasiado apressados a descartar muitos argumentos como sendo um capricho do relativismo moral  pós-modernista, por exemplo, que os altruístas eficazes estão a promover o imperialismo cultural ao forçarem uma concepção ocidentalizada do “bem” às pessoas que estão a tentar ajudar. Mesmo que os AE estejam bastante confiantes de que a visão do mundo utilitarista/reducionista/racionalista está correcta, a visão externa é que realmente envolver-se com uma maior diversidade de opiniões é muito útil.

O discurso em torno do altruísmo eficaz, por exemplo, no grupo do Facebook, costumava ser de qualidade bastante alta. Mas à medida que o movimento cresce, os locais tradicionais de discussão estão a ser inundados por novas pessoas que ainda não absorveram as normas de discussão ou os padrões de prova. Se isso não for corrigido rapidamente, a comunidade AE deixará de ser útil: não haverá um local em que possa funcionar um processo colectivo de procura da verdade. No entanto, ninguém parece estar ciente da magnitude deste problema. Tem havido algumas tentativas sem grande convicção para corrigi-lo, mas nada de significativo resultou disso.

Questões de construção do movimento

O objectivo de ter um “movimento” altruísta eficaz é que este seja maior do que a soma das suas partes. Estar organizado como um movimento deve tornar o altruísmo eficaz no tipo de agente, enorme e semi-monolítico, que consegue realmente concretizar grandes obras, e não apenas contribuições marginais.

Mas na prática, os grandes movimentos e a procura da verdade quase nunca andam de mãos dadas. À medida que os movimentos crescem, adquirem mais “inércia epistémica”: torna-se muito mais difícil actualizarem-se com base em novas provas. Isto porque têm de confiar nos métodos sociais para propagarem os seus memes em vez de confiarem no interesse pela procura da verdade. Mas as pessoas que foram atraídas para o AE por pressão social em vez do interesse pela procura da verdade levam muito mais tempo para mudarem as suas crenças, por isso, uma vez que o movimento atinja uma massa crítica destas, tornar-se-á difícil para o movimento actualizar-se com base em novas provas. Como já foi descrito acima, isso já está a acontecer no altruísmo eficaz, com o grupo do Facebook que é cada vez menos útil .

Conclusão

Apresentei várias áreas em que o movimento do altruísmo eficaz não consegue convergir para a verdade através de uma combinação dos seguintes efeitos: 

  1. Os altruístas eficazes “param de pensar” muito cedo e satisfazem-se com “não é óbvio que isto entre em conflito com os princípios do AE” em vez de optimizarem com base em “isto aumenta a utilidade”. (Por exemplo, escolhem mal as doações devido a esse efeito).
  2. O altruísmo eficaz coloca fortes exigências aos seus praticantes, e as normas do grupo AE não protegem adequadamente contra a cognição motivada para o evitar. (Por exemplo, isso muitas vezes faz com que as pessoas escolham carreiras erradas).
  3. Os altruístas eficazes não se apercebem de áreas importantes a serem analisadas, especificamente questões relacionadas com “ser um movimento de sucesso” em vez de “implementar correctamente o utilitarismo”. (Por exemplo, ignoram questões relacionadas com a epistemologia de grupo, precedentes históricos para o movimento, diversidade no movimento, etc.)

Estes problemas são preocupantes por si mesmos, mas a falta de consciência deles é o verdadeiro problema. A monocultura é preocupante, mas a atitude de indiferença é ainda pior. A falta de rigor é lamentável, mas o facto de as pessoas não se terem apercebido disso é o verdadeiro problema.

Ou os altruístas eficazes ainda não percebem que estão sujeitos aos modos de falha de qualquer grande movimento, ou não sentem motivação para fazer o trabalho básico e aborrecido, por exemplo, envolver-se com pontos de vista que a sua visão interna lhes diga que são irritantes, mas que a visão externa lhes diga que são úteis em expectativa. De qualquer forma, isto indica que há coisas para nos preocuparmos sobre o poder de permanência do movimento.

Mas mais importante ainda, também indica uma falha epistémica por parte dos altruístas eficazes. O facto de ainda mais ninguém dentro do AE ter feito uma crítica substancial é um enorme sinal de alerta. Se os altruístas eficazes não estão cientes das fortes críticas ao movimento AE, por que é que não as procuram? Isso sugere que, ao contrário da ênfase na racionalidade dentro do movimento, muitas crenças dos altruístas eficazes são baseadas no comportamento social, e não no interesse pela procura da verdade.

Se não resolver estes problemas, o-movimento-do-altruísmo-eficaz não me irá ajudar a alcançar um bem maior do que eu poderia alcançar individualmente. Tudo o que fará é adicionar inércia epistémica, pois é preciso mais esforço para mudar o consenso do AE do que para actualizar as minhas crenças individuais.

Estes problemas podem ser resolvidos?

Parece-me que a terceira questão acima (a falta de auto-consciência como movimento social) inclui as outras duas: se o altruísmo eficaz, como movimento, fosse suficientemente introspectivo, provavelmente poderia aperceber-se e resolver os outros dois problemas, bem como os problemas futuros que sem dúvida surgirão.

Por isso, proponho um princípio adicional do altruísmo eficaz. Além de altruístas, maximizadores, igualitários e consequencialistas, devemos ser autoconscientes: devemos pensar cuidadosamente sobre as questões associadas com o que é ser um movimento de sucesso, a fim de garantir que podemos ir além das aplicações óbvias dos princípios do AE e encontrar formas que não sejam trivialmente melhores de melhorar o mundo.

Agradecimentos

Agradeço ao Nick Bostrom por cunhar a ideia de uma apostasia hipotética, e ao Will Eden por mencioná-la recentemente.

Agradeço ao Michael Vassar, ao Aaron Tucker e ao Andrew Rettek por inspirarem vários destes tópicos.

Agradeço ao Aaron Tucker e ao John Sturm pela leitura de um rascunho antecipado deste post e pelo valioso feedback que deram.


Publicado originalmente por Ben Kuhn no EA Forum, a 3 de Desembro de 2013.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.           

 


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