Brasil: doar localmente ou para o exterior?

mbF

“Miséria é miséria em qualquer canto. Riquezas são diferentes” – Miséria, Titãs (Imagem Flickr)

 

Um dilema sempre surge na mente dos participantes brasileiros do altruísmo eficaz:  Face às diferenças cambiais e ao fato do Brasil ser também um país com muita pobreza, será que ainda assim é mais eficaz doar para o exterior? Afinal temos 10 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, cerca de 5% da população. Além disso, sempre que o dólar sobe nossas doações parecem valer um pouco menos.

O problema parece de difícil solução pois ainda não temos uma organização que avalie  instituições de caridade no nosso país ou uma ONG nacional revisada pelas avaliadoras que existem lá fora. A Saúde Criança, por exemplo, está listada nas organizações consideradas pela GiveWell mas, até o momento da publicação deste artigo, esta ainda não havia sido contatada. Desta forma, possuímos apenas algumas hipóteses a avaliar mas pode persistir a dúvida em saber se é melhor doar 0.25 dólares para uma das 4 melhores organizações da GiveWell ou arriscar doar 1 real para alguma organização que nunca foi avaliada [1 Real = 0,25 Dólares dos EUA, a 26/02/16].

Pensando nisso, e em busca de esclarecimentos, entramos em contato com representantes da Animal Charity Evaluator, da GiveWell, da The Life You Can Save e da Giving What We Can, quatro das organizações mais importantes internacionalmente no movimento do altruísmo eficaz. As suas respostas apresentam-se de seguida:

 

Animal Charity Evaluators

Jon Bockman da Animal Charity Evaluators nos esclareceu que não se pode dar uma palavra final sobre qualquer ONG sem que ela tenha sido apropriadamente avaliada. Ele sugere que diante disso busquemos grupos que ao menos atuem em áreas similares às das instituições de ponta por eles avaliadas como mais eficazes. Por meio de Jon ficamos sabendo inclusive que a Animal Equality realiza alguns trabalhos na América Latina e que a Mercy for Animals possui um brasileiro em sua equipe. Lucas Alvarenga é Coordenador de Comunicação no Brasil e também foi contatado.

Lucas confirmou que na questão do sofrimento animal o Brasil tem uma posição estratégica: “Nós somos uns dos maiores produtores e consumidores de carne no mundo e 90% do desmatamento da Amazônia se deve à pecuária”. Apesar do papel relevante ele afirmou que, em relação à eficácia, o Brasil ainda está muito atrás por comparação com as demais ONGs que se dedicam a esta causa, mas disse que a Mercy for Animals está com planos de lançar em breve uma página especialmente dedicada a receber doações em reais.

 

GiveWell

Rebecca Raible, pesquisadora analista da GiveWell respondeu que, de forma geral, podemos considerar que a diferença entre a eficácia das instituições de caridade é tão grande que, mesmo nos casos em que estas doações estejam sujeitas a impostos e taxas, ainda assim faz sentido doar para uma das 4 melhores organizações seleccionadas pela GiveWell.

Rebecca desculpou-se por não poder indicar nenhuma organização brasileira, mas sugeriu que nós mesmos podemos avaliar as organizações brasileiras em que estamos interessados. Para isso sugeriu uma lista de questões que pode guiar os doadores em suas próprias investigações.

 

Giving What We Can

O Diretor de Pesquisa da Giving What We Can, Hauke Hillebrandt, lembrou que altruísmo eficaz é acima de tudo uma questão de otimização. Assim, como Rebecca, ele destacou que a coisa mais importante a se considerar é que existem vastas diferenças em termos de eficácia nas diferentes intervenções de saúde e de combate à pobreza – algumas instituições de caridade são literalmente centenas ou milhares de vezes mais eficazes do que as outras (ver gráfico abaixo). E esta é, justamente, a razão pela qual a estratégia mais comum dentro do altruísmo eficaz é a doação para organizações atuantes nos países mais pobres.

grafico

Comparativo entre organizações medianas, boas e altamente eficazes. | Giving What We Can

Em termos de diferenças entre o Brasil (PIB 15,000 per capita) e, digamos, Uganda onde a GiveDirectly atua (PIB 1,500 per capita), a diferença ainda é substancial o bastante para apoiar doações aos países mais pobres, porque esse multiplicador de 10X cancela qualquer perda de efetividade que o câmbio ou o fato da GiveDirectly e da AMF (Against Malaria Foundation) não serem dedutíveis do imposto de renda. De fato, o Brasil não é tão rico quanto outros países, mas comparando o custo de vida entre São Paulo e Kampala, podemos ver que esta diferença ainda é expressiva.

Quanto a indicar uma organização de atuação brasileira, o único caso em particular que Hauke mencionou foi a UNICEF, atuante há mais de cinquenta anos. Sugeriu ainda que talvez possamos encontrar organizações que tenham bom desempenho em termos de “dólar por esperança de vida saudável (EVCI)” (em inglês DALY) ou “dólar por morte evitada”, tais como organizações focadas em vacinação e planejamento familiar e para as quais seja mais fácil fazer um donativo. Lembrou por fim que intervenções em mortalidade materna e infantil geralmente pontuam bem alto em termos de eficácia.

 

The Life You Can Save

O Diretor Executivo da The Life You Can Save, Charlie Bresler, também foi consultado. Quanto à questão do câmbio, perguntado se é melhor doar 25 dólares lá ou 100 reais aqui, ele disse que “Em qualquer ponto fixo no tempo 100 reais possui um certo “valor” e converter ele para outra moeda não muda esse valor. Uma instituição de caridade ficaria igualmente feliz em receber 100 reais ou 25 dólares. A única razão que os faria preferir um ao outro pode ser o custo de converter a doação para a moeda que a instituição usa, mas isso não tem nada que ver com a variação cambial.”

Ele entende que, de fato, o câmbio varia com o tempo e o “valor” dos 100 reais também muda. Mas a TLYCS recomenda que os doadores ignorem essa questão, pois se basearem suas decisões na variação do valor das moedas sobre o tempo, eles essencialmente estarão especulando no mercado de câmbio de taxas flutuantes. E, em geral, os amadores (e mesmo muitos profissionais) perdem dinheiro ao tentar fazer isso.

Ao ser perguntado sobre alguma instituição que atue no pais, Charlie citou a Oxfam Brasil, que está presente no país desde 1965 e é uma das organizações recomendadas pela TLYCS. Ele reconheceu que realmente muitos brasileiros sofrem por viver em pobreza extrema, mas existem outros países onde a pobreza extrema é muito mais presente e que, justamente por sua pobreza, nestes países as doações podem causar um impacto muito maior. Esse impacto é tão grande que as organizações sugeridas por eles ainda são as melhores opções mesmo considerando as possíveis taxas de conversão.

 

Notas finais

William MacAskill (Co-fundador da GWWC) no seu livro Doing Good Better, baseando-se nos critérios da GiveWell, estabelece as 5 perguntas que cada doador deveria fazer antes de decidir para onde doar:

  1. O que faz esta instituição de caridade?
  2. Quão custo-eficaz é cada programa em cada área?
  3. Quão sólidas são as evidências que suportam cada programa?
  4. Quão bem implementado é cada programa?
  5. Será que esta instituição precisa de fundos adicionais?

Para se perceber melhor, então, a complexidade da avaliação das diversas instituições de caridade, veja-se a disparidade no cumprimento destes critérios, mesmo quando se comparam as melhores instituições até hoje avaliadas:

Custo-eficácia estimada Solidez de evidências Qualidade da implementação Espaço para mais financiamento
GiveDirectly ●● ●●●● ●●●● ●●●●
Development Media International ●●●● ●● ●●● ●●●
Deworm the World Initiative ●●● ●●● ●●●
Schistosomiasis Control Initiative ●●● ●●● ●● ●●
Against Malaria Foundation ●●● ●●● ●●●● ●●●●
Living Goods ●●● ●● ●● ●●
Iodine Global Network ●●● ●● ●●●
●●●● extremamente (melhor/maior) e ● não muito (menor)

Ainda a propósito, William MacAskill afirma que “Doar dinheiro às melhores instituições de caridade de saúde do mundo em desenvolvimento chegará a pelo menos 100 vezes mais pessoas do que se você doar para causas de saúde no mundo desenvolvido.”

 

Conclusão

Este artigo se propôs a investigar se o Brasil tem características suficientemente específicas para não se justificar a aplicação daquilo que normalmente se prova ser mais eficaz, doar para o exterior em vez de localmente. Como vimos, isso poderia ser assim por duas razões:

  1. O nosso donativo perder demasiado valor com o câmbio monetário;
  2. O Brasil ser também um país muito pobre, com ONGs a trabalharem bem no terreno.

Quanto à primeira questão Charlie Bresler (da TLYCS) sublinhou a dificuldade de gerir algo tão inconstante como a flutuação dos câmbios e o fato de a diferença poder ser superada pelo impacto do donativo. Este impacto pode ser muito superior se compararmos as boas instituições de caridade e aquelas que são excelentes, como destacou Hauke Hillebrandt (da GWWC) e a Rebecca Raible (da GiveWell), o que responde também à segunda questão. Ou seja, mesmo considerando a possível perda de valor do donativo (ao passar para 1/4 devido ao câmbio), pode ainda assim justificar-se o donativo para uma organização a atuar no exterior se esta for, pelo menos, 5 x mais eficaz do que aquela que atua localmente.

Ainda assim, com todas estas reservas, brasileiros que decidam considerar doações para organizações atuantes no país, devem se assegurar que estas são comprovadamente eficazes, seja porque já foram avaliadas (como no caso da Oxfam Brasil), seja como resultado de uma avaliação metódica, ou de uma pesquisa profunda

Este é um assunto de amplo interesse entre participantes do altruísmo eficaz no Brasil e é possível que a situação se possa alterar futuramente, assim iremos estar atentos no sentido de poder publicar informações atualizadas.


 

Artigo realizado por Thiago Tamosauskas (com a colaboração de Ronaldo Batista e José Oliveira)

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Um comentário sobre “Brasil: doar localmente ou para o exterior?

  1. Excelente artigo. Ouvi dizer que a Care trabalha no Brasil, mas não sei sobre isso, e nem sobre a Oxfam (sobre o que fazem exatamente, com quem trabalham, como funcionam), nem sei se a CARE está na lista do TLYCS. A CARITAS, da Igreja, se não me engano, foi mal avaliada pela GiveWell, mas e a Oxfam e a Care? Por último, apesar de ser eficaz doar para organizações excelentes internacionais, muitas pessoas do Brasil esperarão começar a doar aqui mesmo, e teríamos de ter algum tipo de preocupação com o discurso e a propaganda para estimula-las a isso, já que doar algo como forma de compromisso altruísta, mesmo que pouco eficaz, parece melhor do que não doar e não se comprometer. Mas não sei ainda como lidar com isso.

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