Serão as alterações climáticas a maior ameaça que a humanidade enfrenta actualmente?

Por Benjamin Hilton (80,000 Hours)

Alterações climáticas, serão o nosso fim? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Poderão as alterações climáticas conduzir ao fim da civilização?

Em todo o mundo, mais de metade dos jovens se preocupa que, como resultado das alterações climáticas, a humanidade esteja condenada.1 Sentem-se zangados, impotentes, e — acima de tudo — com medo daquilo que o futuro lhes possa reservar.2

As alterações climáticas são tão importantes, para tanta gente, não só pelo sofrimento e injustiça que já está a causar, mas também porque é uma das poucas questões que tem um potencial óbvio para afectar o nosso mundo ao longo de muitas gerações futuras. Pensamos que a salvaguarda das gerações futuras é uma prioridade moral fundamental, e deveria ser uma consideração crucial na priorização dos problemas nos quais se deve trabalhar.

Se as alterações climáticas pudessem levar ao fim da civilização, isso significaria que as gerações futuras poderiam nunca vir a existir – ou poderiam viver num mundo permanentemente pior. Se assim for,  preveni-las e adaptarmo-nos aos seus efeitos poderia ser mais importante do que trabalhar em quase qualquer outra questão.

Então – o que diz a ciência?

O 6º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) é, tanto quanto sabemos, a fonte mais autorizada e abrangente face às alterações climáticas. O relatório é claro: as alterações climáticas serão extremamente destrutivas. Veremos inundações, fomes, incêndios e secas – e as pessoas mais pobres do mundo serão as mais afectadas.3

Mas mesmo quando tentamos dar conta daquilo que não sabemos que não sabemos,4 nada no relatório do IPCC sugere que a civilização será destruída.

Isto não quer dizer que a sociedade não deva fazer muito mais para combater as alterações climáticas.

Isto porque os impactos das alterações climáticas continuarão a ser significativos – poderá desestabilizar a sociedade, destruir ecossistemas, colocar milhões na pobreza e agravar outras ameaças existenciais tais como pandemias concebidas em laboratório, riscos da IA, ou guerra nuclear. Caso queira fazer das alterações climáticas o objectivo da sua carreira, incluímos abaixo algumas reflexões sobre as formas mais eficazes de ajudar a combatê-las.

Portanto, sim, as alterações climáticas são assustadoras. E as pessoas têm razão para estar zangadas por se estar a fazer muito pouco.

Mas não estamos impotentes.

E estamos longe de estar condenados.

Resumo

As alterações climáticas vão ter um impacto significativo e negativo no mundo. Os seus impactos nas pessoas mais pobres da nossa sociedade e na biodiversidade do nosso planeta são motivo de particular preocupação. Olhando para os piores cenários possíveis, pode ser um factor importante que aumenta as ameaças existenciais de outras fontes, como grandes conflitos de poder, guerra nuclear, ou pandemias. Mas como as piores consequências potenciais parecem passar por essas outras fontes, e estes outros riscos parecem maiores e mais negligenciados, pensamos que a maioria dos leitores pode ter um impacto maior, em expectativa, ao trabalhar directamente num desses outros riscos.

Pensamos que a sua pegada pessoal de carbono é muito menos importante do que aquilo que faz através do seu trabalho, e que algumas formas de fazer a diferença nas alterações climáticas são provavelmente muito mais eficazes do que outras. Em particular, poderia usar a sua carreira para ajudar a desenvolver tecnologia ou defender políticas que reduzissem as nossas actuais emissões, ou investigar tecnologia que pudesse remover o carbono da atmosfera no futuro.

A nossa visão global

Por vezes recomendado

Adoraríamos ver mais pessoas a trabalhar nesta questão, mas – dada a nossa visão geral do mundo – tudo o resto sendo igual, ainda ficaríamos mais entusiasmados caso alguém trabalhasse numa das nossas áreas problemáticas de prioridade máxima.

Escala  

[Se resolvêssemos este problema, até que ponto o mundo se tornaria um lugar melhor? Leia mais.]

Pensamos que o trabalho para reduzir materialmente a probabilidade dos piores resultados das alterações climáticas teria um grande impacto positivo. No entanto, as alterações climáticas parecem ter centenas de vezes menos probabilidades de causar *directamente* a extinção humana do que outros riscos que nos preocupam, como pandemias catastróficas. Como resultado, se as alterações climáticas tiverem consequências catastróficas e potencialmente duradouras para a civilização humana, isso será provavelmente através do agravamento de outros problemas, tais como o conflito entre grandes potências. Este risco *indirecto* leva a escala das alterações climáticas como um problema a aproximar-se de outros riscos de extinção, embora ainda pareça mais de 10 vezes menos susceptível de causar a extinção do que a guerra nuclear ou pandemias. A nossa opinião é que mais pessoas deveriam considerar seriamente a possibilidade de abordar directamente essas questões.

Negligência   

[Quantos recursos já estão a ser dedicados à resolução deste problema? Leia mais.]

Globalmente, as alterações climáticas são muito menos negligenciadas do que outras questões que priorizamos. As despesas actuais são provavelmente superiores a 640 mil milhões [Br. 640 bilhões] de dólares por ano. As alterações climáticas também têm recebido elevados níveis de financiamento durante décadas, o que significa que muito trabalho de alto impacto já ocorreu. Também parece provável que à medida que as alterações climáticas se agravam, ser-lhes-á dada ainda mais atenção, permitindo-nos fazer mais para combater os seus piores efeitos. Contudo, há provavelmente áreas específicas que não recebem tanta atenção como deveriam.

Resolubilidade   

[Se duplicássemos o esforço directo sobre este problema, que fracção do problema restante esperaríamos resolver? Leia mais.]

As alterações climáticas parecem ser mais fáceis de controlar do que muitos outros riscos catastróficos globais. Isto porque há uma medida clara do nosso sucesso (a quantidade de gás com efeito de estufa que estamos a emitir),  para além de muita experiência a ver aquilo que funciona – por isso há provas claras de como seguir em frente. Dito isto, as alterações climáticas são um problema complicado de coordenação global, o que torna mais difícil a sua resolução.

Profundidade do perfil

Médio  

Este é um dos muitos perfis que escrevemos para ajudar as pessoas a encontrar os problemas mais prementes que podem resolver com as suas carreiras. Saiba mais sobre como comparamos diferentes problemas, veja como tentamos pontuá-los numericamente, e veja como este problema se compara com os outros que temos considerado até agora.

Se tiver algum feedback sobre este artigo – se houver alguma coisa em que tenhamos errado, algo na sua redacção que possamos melhorar, ou se quiser dizer-nos que adorou lê-lo – gostaríamos imenso se nos pudesse dizer o que pensa usando este formulário.

Nesta página:

Notas e referências

1 – Hickman et al., 2021, Ansiedade climática em crianças e jovens e as suas crenças sobre as respostas governamentais às alterações climáticas: um inquérito global. Hickman et al. inquiriram 10 000 crianças e jovens (entre 16 a 25 anos de idade) em 10 países (1000 participantes, cada um, na Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e EUA) entre 18 de Maio e 7 de Junho de 2021. 55,7% dos inquiridos concordaram que “a humanidade está condenada”.

2 – Hickman et al., 2021. Aqui, citamos os seguintes resultados do inquérito: 56,8% relataram ter-se sentido zangados, 56,0% relataram ter-se sentido sem esperança, 61,8% relataram ter-se sentido com medo e 75,5% concordaram que “o futuro é assustador”.

3 – Mais especificamente, o relatório adverte que, até 2050, sem reduções dramáticas das emissões, assistiremos a enormes mudanças no planeta: furacões, tempestades, tsunamis e subida do nível do mar irão ameaçar mais de mil milhões [Br. 1 bilhão] de pessoas que vivem em zonas baixas. Muitas destas pessoas serão forçadas a deslocar-se para terrenos mais altos, aumentando as hipóteses de conflitos e crises migratórias. Até 183 milhões de pessoas adicionais ficarão subnutridas em países de baixos rendimentos, e até 4 mil milhões [Br. 4 bilhões] de pessoas irão sofrer de escassez crónica de água.

Estes impactos das alterações climáticas são retirados da pergunta 3 da FAQ sobre o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC: Como irão as alterações climáticas afectar no futuro a vida das crianças de hoje, se não forem tomadas medidas imediatas?

A escassez crónica de água significa, aproximadamente, viver numa região onde, durante pelo menos um mês por ano, todos os anos, é necessária mais água do que aquela que se espera que esteja disponível na região.

4 – Ver secção 7.5.5 do Sexto Relatório de Avaliação. Falando de sensibilidade do equilíbrio climático (ECS, que é aproximadamente a quantidade de aquecimento que podemos esperar face a uma certa quantidade de emissões de carbono), o relatório diz:

Nas ciências climáticas, existem frequentemente boas razões para considerar representar uma incerteza profunda, ou o que por vezes é referido como aquilo que não sabemos que não sabemos. Isto é natural num campo que considera um sistema que é complexo e ao mesmo tempo desafiante de observar. Por exemplo, uma vez que as restrições emergentes representam uma linha de prova relativamente nova, importantes mecanismos de feedback podem ser tendenciosos na compreensão a nível do processo, os efeitos de padrão e arrefecimento por aerossol podem ser grandes e as provas paleológicas podem ser intrinsecamente baseadas em provas indirectas e incompletas de estados climáticos passados, pode certamente haver razões válidas para acrescentar incerteza aos intervalos avaliados em linhas de prova individuais. Isto foi de facto abordado nas Secções 7.5.1 a 7.5.4. Uma vez que não é provável que todas as linhas de prova aqui avaliadas sejam colectivamente tendenciosas, nem a avaliação é sensível a linhas de prova individuais, não se considera necessária uma incerteza profunda para enquadrar a avaliação combinada do ECS.


Publicado originalmente por Benjamin Hilton nas 80,000 Hours, a 18 de Maio de 2022.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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