Altruísmo eficaz: Expansionismo do Círculo Moral

Onde pára a preocupação com os outros? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: prottoy hasan)

As pessoas comuns preocupam-se mais com alguns grupos de seres do que com outros. Por vezes, as pessoas referem-se a isso como “círculos morais” ou “círculos de consideração”, imaginando algo deste género.

O próprio; os parentes; o grupo social, a tribo; a própria raça, a nação, o grupo religioso; todas as pessoas; toda a vida animal; todas as espécies da Terra; todos os ecossistemas da Terra. Fonte.

Um estudo de 2021 pediu às pessoas que classificassem em que medida se sentiam obrigadas a mostrar consideração moral pelo bem-estar e pelos interesses de vários destinatários. Eis o gráfico:

Parceiro/cônjuge, membro da família, amigo próximo, pessoa com deficiência mental, colega do trabalho, pessoa homossexual, trabalhador na caridade, cão, refugiado, soldado, concidadão, pessoa da vizinhança, cidadão do estrangeiro, alguém com diferentes crenças religiosas, elefante, gato, chimpanzé, baleia, cavalo, recife de coral, leão, floresta antiga, chefe de estado, coruja, membro do partido oposto, vaca, lobo, ovelha, coelho, porco, abelha, sequóia, cabra, tubarão, polvo, galinha, sapo, macieira, peixe, pombo, montanha mais alta, cobra, rato, roseira, camarão, ratazana, aranha, verme, formiga, vespa, mosca, assassino, terrorista e molestador de crianças.

Há alguns resultados muito engraçados. (Veja-se “member of opposing political party” [“membro de um partido político oposto”]!) De um modo geral, parece que a maioria das pessoas tem círculos morais que se organizam mais ou menos assim:1

  • Círculo mais íntimo: o cônjuge, os membros da família e as pessoas amigas mais próximas.
  • Segundo círculo: os grupos marginalizados, pessoas que conhece mas não muito bem.
  • Terceiro círculo: as pessoas notáveis, os desconhecidos do seu país, os cães.
  • Quarto círculo: as pessoas estrangeiras, os animais selvagens, os animais de estimação de outras espécies, o ambiente, os membros de outros grupos.
  • Quinto círculo: os animais de espécies usadas para a alimentação, os animais predadores, as árvores, as montanhas invulgarmente altas.
  • Sexto círculo: as espécies consideradas como pragas, as pessoas más.

Se tomarmos as “formigas” como o ponto zero, então o sexto círculo está, de facto, invertido.2 As pessoas não são apenas indiferentes às espécies consideradas como pragas, aos terroristas e aos molestadores de crianças —  mas querem realmente que os membros desses grupos sofram.

Os altruístas eficazes não fazem nada disso. Os altruístas eficazes adoptam o que Peter Singer, na Ética Prática, designa por “princípio da igual consideração de interesses”: devemos preocupar-nos igualmente com o bem-estar3 de todos os que são afectados pelas nossas acções, independentemente da raça, género, nacionalidade, localização ou espécie.

Agora, tendo dito isto, tenho de recuar um pouco. Como ser humano, não é realmente possível adoptar o princípio da igual consideração de interesses. É óbvio que nos preocupamos mais connosco próprios, com a nossa família, os nossos amigos ou os nossos filhos do que com estranhos. Se tentássemos seguir o princípio da igual consideração de interesses, teríamos um colapso nervoso.

O que se pode fazer — e o que fazem os altruístas eficazes — é reduzir os cerca de seis círculos a três:

  • Círculo mais íntimo: o cônjuge, os membros da família e os amigos mais próximos.
  • Segundo círculo: as pessoas que conhece mas não muito bem.
  • Terceiro círculo: literalmente todos os outros.

Reduzir os círculos implica quatro mudanças. Vou falar sobre elas por ordem de importância, começando pela menos importante.4

Em primeiro lugar, os altruístas eficazes tendem a não se preocupar mais com as pessoas marginalizadas do que com as outras pessoas. As pessoas marginalizadas normalmente sofrem mais do que as outras e geralmente é mais barato ajudá-las. Portanto, isto não tem qualquer efeito na prática — a tal ponto que nem sei se esta afirmação é verdadeira ou se é apenas algo que inventei para tornar a minha teoria mais elegante. Mas incluí esta secção para agradar a quem gosta de criticar o movimento “woke”.

Em segundo lugar, os altruístas eficazes rejeitam o mérito moral. Hesito em dar demasiada importância a este aspecto, porque, rejeitar o mérito moral, é (quase) completamente irrelevante para a tomada de decisões dos altruístas eficazes. Mas, do ponto de vista antropológico, é uma característica tão marcante da psicologia do altruísta eficaz que tenho de a referir.

As pessoas comuns têm o sexto círculo invertido. Não só não se preocupam com o bem-estar dos molestadores de crianças, mas também querem que estes sofram. É claro que as pessoas comuns não têm muitas pessoas no seu círculo invertido: é preciso ser invulgarmente vingativo ou invulgarmente azarado para encontrar alguém do círculo invertido nem que seja uma vez por semana. Mas as pessoas comuns continuam a acreditar que é moralmente correcto que algumas pessoas — terroristas e nazis, criminosos sexuais e pessoas que torturam cães — sofram.

Os altruístas eficazes discordam. É certo que, em muitas situações, o sofrimento das pessoas más produz os melhores resultados. Por exemplo, punir o mau comportamento pode impedir que as pessoas se comportem mal no futuro e, por vezes, é necessário trancar as pessoas num lugar onde estas não possam fazer mal a ninguém. Mas um altruísta eficaz5 escreveu uma vez que, se tivesse a possibilidade de dar a Hitler um sonho agradável — imediatamente antes de ele morrer de suicídio, de forma a que isso não o fortalecesse para cometer mais atrocidades, e de maneira secreta, para que ninguém fosse incentivado a cometer o Holocausto –, ela fá-lo-ia. Porque acredita que, tudo o resto sendo igual, é bom que Hitler esteja feliz.

Pessoalmente, não tenho o círculo invertido e a sua existência é, sem dúvida, o aspecto da psicologia das pessoas comuns que mais me faz sentir rodeado de psicopatas sádicos.

Em terceiro lugar, a questão da espécie. Como já referi, os altruístas eficazes aceitam o princípio da igual consideração de interesses. Se dois seres têm interesses igualmente importantes, devemos considerá-los de forma igual, independentemente da espécie. Não se pode matar o Chewbacca e depois dizer “não faz mal que eu o mate, porque ele não é humano, é um Wookie”.

Isso significará que temos de tratar os camarões exactamente da mesma forma que tratamos os seres humanos? Cada viveiro de camarões é Treblinka? Cada prato de “camarão scampi” faz de si o Ted Bundy?

Não me parece. Os seres humanos não são assim tão diferentes uns dos outros. Todo o ser humano tem aproximadamente a mesma capacidade de bem-estar que qualquer outro ser humano.6 Mas os seres humanos são muito diferentes dos camarões — ou dos cães, das galinhas, das formigas, das roseiras, ou das bactérias.

É possível que os camarões não tenham qualquer capacidade de bem-estar.7 As roseiras e as bactérias com certeza que não têm. Se um ser não é capaz de sentir bem-estar, é evidente que os altruístas eficazes não se preocupariam com ele. Os altruístas eficazes discordam fortemente entre si sobre quais são os seres que têm a capacidade de sentir bem-estar. Pessoalmente, já conheci um altruísta eficaz que exclui os chimpanzés e um altruísta eficaz que se preocupa com as bactérias, mas ambas são posições bastante extremas. A posição mais comum parece ser a inclusão directa de todos os vertebrados, uma preocupação saudável com pelo menos alguns invertebrados e uma alegre provocação dos veganos “normie”, dizendo-lhes que as amêijoas são plantas de carne. Deliciosas, deliciosas plantas de carne.8

Mesmo que os camarões tenham capacidade de bem-estar, isso não significa que sejam tão importantes como os seres humanos. Os camarões têm menos capacidade de bem-estar do que os seres humanos ou, dito de outra forma, os seus interesses são menos importantes do que os de um ser humano. Roubando uma metáfora do Rethink Priorities, podemos pensar no bem-estar como água, e alguns indivíduos são “baldes” maiores.

Também roubei a imagem deles, caso tenha dificuldade em visualizar um balde minúsculo.

Para mais informações sobre este assunto, recomendo a leitura do excelente Moral Weight Project [Projecto dos Pesos Morais] do Rethink Priorities, que fornece estimativas aproximadas, mas úteis, do peso moral de várias espécies.

Vejamos novamente os círculos de consideração das pessoas comuns em relação aos animais:

Parceiro/cônjuge, membro da família, amigo próximo, pessoa com deficiência mental, colega do trabalho, pessoa homossexual, trabalhador na caridade, cão, refugiado, soldado, concidadão, pessoa da vizinhança, cidadão do estrangeiro, alguém com diferentes crenças religiosas, elefante, gato, chimpanzé, baleia, cavalo, recife de coral, leão, floresta antiga, chefe de estado, coruja, membro do partido oposto, vaca, lobo, ovelha, coelho, porco, abelha, sequóia, cabra, tubarão, polvo, galinha, sapo, macieira, peixe, pombo, montanha mais alta, cobra, rato, roseira, camarão, ratazana, aranha, verme, formiga, vespa, mosca, assassino, terrorista e molestador de crianças.

O principal factor que parece influenciar a forma como as pessoas classificam as espécies é a sua utilidade para os seres humanos: primeiro os cães, depois outras espécies de animais de estimação como os gatos e os cavalos, depois os animais selvagens, depois as espécies usadas na alimentação e, por fim, as espécies consideradas como pragas. O segundo factor mais importante parece ser o grau de “carisma” da espécie: baleias, leões e recifes de coral majestosos estão muito à frente de animais selvagens que são assustadores (como os tubarões) ou simplesmente pouco atraentes (como os polvos).

A partir de qualquer perspectiva filosófica bem fundamentada — não apenas a partir do altruísmo eficaz — este esquema de prioridades é um disparate. Li diversos livros sobre ética animal e não encontrei um único autor que defendesse a ideia de que nos deveríamos preocupar mais com os animais “fofinhos” do que com os que não o são.  Mesmo que se acredite que temos uma obrigação especial para com os animais domesticados, não se pode justificar uma menor obrigação para com os porcos do que para com as corujas.

Mas este sistema é muito conveniente. Se não nos preocuparmos com o bem-estar das espécies usadas na alimentação, podemos comer carne sem sentimentos de culpa. Se quisermos que as pragas sofram, podemos espalhar veneno dos ratos com satisfação. E, se só nos preocuparmos com elefantes e leões, a extinção em massa deixa repentinamente de ser um problema.

Fala-se de especismo como se fosse o tratamento dos seres humanos de forma diferente dos outros animais. Mas, a meu ver, na maioria das vezes, o especismo manifesta-se quando se trata alguns animais de forma diferente de outros animais: não é correcto torturar cães porque são animais de estimação, mas já é aceitável torturar porcos porque são alimento. Alguns altruístas eficazes não se preocupam com os chimpanzés e outros preocupam-se com as bactérias — mas nenhum faz distinções arbitrárias entre espécies com base exclusiva na conveniência humana.

Em quarto lugar, os altruístas eficazes não se preocupam mais com alguns estranhos do que com outros.

No romance Cama de Gato, de Kurt Vonnegut, um granfalloon é uma falsa comunidade, um sentimento de ligação que se tem com base numa pertença a uma categoria sem verdadeiro significado. Vonnegut dá exemplos: “o Partido Comunista, as Filhas da Revolução Americana, a General Electric Company, a Ordem Internacional dos Odd Fellows — e qualquer nação, em qualquer altura, em qualquer lugar”.

A maior parte das divisões que as pessoas fazem nos seus círculos mais afastados — vizinhança, religião, partido político, nacionalidade — são granfalloons. Sintam-se à vontade para amar mais os vossos amigos e familiares do que os estranhos. Mas (dizem os altruístas eficazes) não dividam os estranhos com base num vínculo arbitrário inventado. Se alguém que eu nunca conheci vive a dois mil quilómetros a leste de mim, em Chicago, ela é minha amiga e irmã. Mas se alguém que nunca conheci vive a dois mil quilómetros a sul de mim, na Cidade do México, é uma estranha e minha inimiga. O quê? Não. Isso é estúpido.

Esta é, a meu ver, a condição sine qua non do altruísmo eficaz. Se me apontassem uma arma à cabeça e me obrigassem a reduzir o altruísmo eficaz a três afirmações, a primeira seria: não dar mais importância a uns estranhos do que a outros com base numa pertença arbitrária a um grupo.

Se eu o conhecer a si pessoalmente, é natural que me preocupe mais consigo; isso é humano e não o fazer não seria possível nem desejável. Mas se um estranho estiver a morrer com dores horríveis, preocupo-me tanto se for negro como se for branco — tanto se for republicano como se for democrata — tanto se estiver em África como se estiver na América — tanto se estiver do outro lado do mundo como se estiver, agora, mesmo à minha frente. Esta é a primeira parte daquilo que é o altruísmo eficaz, a primeira coisa que une estes três grupos estranhos.

1 Este é o resultado da minha observação de um gráfico e da divisão em grupos daquilo que é, obviamente, um espectro contínuo, por isso é um pouco artificial.

2 O que, convenhamos, é difícil de representar num diagrama em forma de círculos.

3 O que, recorde-se, não se refere apenas à felicidade ou ao prazer, mas a tudo o que possa ser bom ou mau para um ser em particular.

4 Os leitores poderão reparar que excluí “preocupação com pessoas futuras”. Isto porque não concordo com a visão habitual entre altruístas eficazes de que o longotermismo nasce da preocupação com os interesses das pessoas do futuro. Pretendo abordar o longotermismo num texto futuro.

5 Peço desculpa por não referir a autoria — não consegui encontrar a publicação original.

6 Partindo do princípio de que se usa uma definição comum de bem-estar e não uma definição esquisita, ao estilo pseudo-nietzscheano, de avatar em forma de estátua grega.

7 O consenso científico ainda não é claro quanto à capacidade dos camarões de sentirem dor.

8 Sou alérgico a amêijoas, por isso não posso participar nesta brincadeira. 😦 



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