Por Zoe Williams (EA Forum)

Bem-estar Animal, em 6 minutos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Jinen Shah)
Em Agosto de 2022, comecei a fazer resumos, todas as semanas, dos principais posts do fórum AE e do LW [LessWrong]. Este post reúne os temas-chave que vi nos posts principais sobre bem-estar animal desde então. (Note-se que também está a realizar-se muito bom trabalho para além daquilo que é publicado no fórum! Este post não pretende abordar esse trabalho).
Se estiver interessado em manter-se actualizado regularmente, considere subscrever os Sumários semanais do forum AE e do LW, ou o Resumo Quinzenal da Defesa Animal. Anúncios no fórum aqui e aqui.
E para uma excelente visão geral daquilo de bom que a comunidade está a fazer neste âmbito, recomendo vivamente a leitura de as “Grandes vitórias para os animais da pecuária nesta década” de Lewis Bollard.
Principais Conclusões
- Para calcular os pesos morais das diferentes espécies foi sugerido um método de vários tipos de valores substitutos, considerada uma opção melhor do que a contagem de neurónios, esta primeira tentativa foi baseada em investigações empíricas e filosóficas levadas a cabo pela Rethink Priorities.
- Há um interesse crescente no bem-estar dos pequenos animais, por exemplo, peixes, crustáceos e insectos. Isto é particularmente relevante para intervenções que possam causar efeitos da substituição (os consumidores passarem de um tipo de produto animal para outro).
- O bem-estar dos animais selvagens está a tornar-se uma área de causa mais estabelecida, com lançamentos recentes que incluem o WildAnimalSuffering.org e o Programa de Bem-Estar dos Animais Selvagens da NYU [Universidade de Nova Iorque].
- Foram alcançadas várias vitórias políticas importantes, incluindo a primeira aprovação pela FDA [Food and Drug Administration] de carne cultivada em laboratório e um anúncio da UE [União Europeia] de que iria apresentar uma proposta para pôr fim ao abate sistemático de pintainhos machos.
Temas
Comparações entre Espécies
Ir para além da contagem de neurónios
Registaram-se grandes avanços na realização de modelos de comparação de bem-estar entre espécies.
A Rethink Priorities publicou a Sequência do Projecto de Pesos Morais (dirigida por Bob Fischer), que aborda questões filosóficas e empíricas relacionadas com as capacidades relativas de bem-estar de 11 animais diferentes da pecuária. Isto incluiu a análise nesses animais de provas de 90 valores substitutos diferentes a nível hedónico e cognitivo, discutindo porque é que não devemos utilizar apenas a contagem de neurónios, e publicando um modelo de diferenças relativas nestes animais quanto às possíveis intensidades de prazer e de dor (comparativamente com os seres humanos). Pode ver os resultados abaixo — os investigadores sugerem a sua utilização como os melhores valores substitutos disponíveis até que haja mais investigação, e indicam que a tradução da intensidade da experiência (intervalo de bem-estar) para “peso moral” depende de vários pressupostos filosóficos:

Título: Variação das estimativas de valores substitutos do bem-estar (anos de vida). Humanos, porcos, galinhas, polvos, carpas, abelhas, salmões, lagostins, camarões, caranguejos, moscas-soldados-negros, bichos da seda.
Outros trabalhos nesta área incluíram:
- O lançamento do Programa Mente, Ética e Políticas da NYU, que irá conduzir e apoiar investigação de base sobre a natureza e o valor intrínseco das mentes não humanas, incluindo mentes biológicas e artificiais. Dará um destaque especial para os invertebrados e para as IA.
- O Shrimp Welfare Project [Projecto do Bem-estar de Camarões] (fundado em 2021) divulgou investigações sobre a utilização de marcadores biológicos para medir o bem-estar dos camarões, e para dar prioridade às práticas que causam os maiores danos.
- MHR sublinha que os problemas com a utilização da contagem de neurónios abrangem tanto o domínio prático como o filosófico — os únicos relatórios empíricos disponíveis publicamente que reportam a contagem de neurónios de peixes, baseiam-se exclusivamente em amostras de espécies muito pequenas (<1 g de peso corporal), enquanto que muitos peixes da aquacultura são mil vezes maiores. Isto deve tornar-nos mais cépticos face à estimativa do peso moral dos peixes da aquacultura com base na contagem de neurónios.
- Rethink Priorities divulgou a investigação sobre as considerações de bem-estar da mosca-soldado-negro em criação intensiva — a qual se prevê tornar-se a espécie de insecto mais numerosa na produção intensiva na próxima década.
Os perigos dos efeitos da substituição
Uma equipa de entomologistas e filósofos do Irão, do Reino Unido e dos EUA encontrou provas robustas ou substanciais de dor em insectos adultos pertencentes a cinco ordens, e o ishankhire tentou criar um modelo do sofrimento do grilo por cada kg consumido e descobriu que é muito mais elevado do que o sofrimento causado por outras formas de produção intensiva.
Stijn descobriu que a mudança de carne de vaca para carne de frango ou de insecto reduz as alterações climáticas, mas aumenta o sofrimento dos animais muitas vezes mais.
A Anima international suspendeu a sua campanha para acabar com as vendas de peixe vivo na Polónia, depois de se ter apercebido que poderia causar uma mudança nas preferências pela Carpa para o Salmão — o último dos quais é carnívoro e requer mais peixe para alimentação, pelo que envolveria muito mais sofrimento por cada kg de peixe da aquacultura no geral.
No seu conjunto, estes exemplos sugerem uma consciência crescente do perigo dos efeitos da substituição, ou seja, a deslocação dos consumidores de uma forma de produto animal para outra. À medida que crescem as nossas provas do peso moral dos animais mais pequenos, estes estão a receber uma maior atenção no âmbito do AE.
Bem-estar dos animais selvagens

“No entanto… na natureza: Por cada ser humano, há cerca de: 10 a 50 pássaros selvagens; 10 a 100 mamíferos selvagens; 1000 a 100 000 peixes; 10 000 a 106 minhocas… a existirem em qualquer altura.” (Imagem de WildAnimalSuffering.org)
O bem-estar dos animais selvagens é uma área de causa relativamente recente, potencialmente com uma escala massiva. Ao longo dos últimos 6 meses, os AE lançaram dois novos recursos para divulgação nesta área:
- WildAnimalSuffering.org, um site dos Vegan Hacktivists, com informação visualmente envolvente e acessível sobre questões relacionadas com o sofrimento dos animais selvagens. Anúncio aqui.
- O programa da NYU Wild Animal Welfare (WAW), que visa utilizar a investigação e campanhas de divulgação para promover a compreensão sobre os animais selvagens. Inscreva-se aqui para receber actualizações por e-mail.
Além disso, a Wild Animal Initiative recebeu 400 mil dólares de financiamento do Animal Welfare Fund, em Abril de 2022, para criar um ramo académico dedicado ao bem-estar dos animais selvagens.
Política
Vitórias
Nos últimos 6 meses, ocorreram algumas grandes vitórias políticas para os animais da pecuária industrial:
- A US Food and Drug Administration (FDA) concedeu a sua primeira aprovação de segurança a uma startup com um produto de carne cultivada em laboratório.
- A UE anunciou que apresentaria uma proposta para acabar com a prática sistemática de matar pintainhos machos em toda a UE.
Isto vem na sequência de vitórias no início de 2022, que viu o bem-estar dos peixes ser discutido no parlamento britânico pela primeira vez, o bem-estar dos caranguejos, lagostas e camarões reconhecido no Reino Unido pela nova Lei de Bem-Estar dos Animais (Sencientes), e 161 novas organizações a nível mundial comprometem-se a utilizar produtos sem o uso de gaiolas. Agradecemos a Shakeel Hashim por coleccionar estas e muitas outras vitórias de 2022 no AE.
Lobbying
Os AE têm recolhido dados relevantes para o lobbying do bem-estar animal:
- A Animal Ask investigou a literatura académica sobre lobbying, e descobriu que tinha muitos pontos fracos bem conhecidos, e que não era adequada para avaliar o impacto contrafactual.
- A 25 de Setembro, o eleitorado suíço teve a oportunidade de votar a favor da abolição da pecuária industrial. Não avançou, mas 37% votaram a favor, com 52% de participação.
- Uma sondagem realizada pela Rethink Priorities, e representativa a nível nacional dos EUA, revelou que 15,7% apoiavam a proibição dos matadouros (quando se apresentavam argumentos a favor e contra enquadrados em torno do bem-estar animal, e caso se pedisse para explicarem o seu raciocínio).
- O estudo da Pax Fauna sobre narrativas de bem-estar animal descobriu que a “futilidade” (“a minha mudança não vai ter importância se o mundo não mudar também”) era uma grande barreira à acção. Na transmissão de mensagens a promoção de políticas pró-animais em detrimento das decisões individuais de consumo, e a ênfase no progresso social, foram instrumentos eficazes para combater esta situação.
Os potenciais aliados
RobertY sugeriu que se deveria trabalhar com a indústria da carne de bovino para reduzir o consumo de pequenos animais como as galinhas, em favor da carne de bovino. Esta abordagem baseia-se num corpo crescente de investigação de que a maior parte do sofrimento da pecuária industrial provém de pequenos animais (por exemplo, frangos, peixes, invertebrados). No entanto, muitos comentários apontaram para o risco de reputação desta abordagem.
Num outro caso em defesa da redução da hostilidade, Aidan Kankyoku sugere que o enquadramento do “bem-estarismo vs. abolicionismo” é obsoleto, estando todas as partes a trabalhar em diferentes passos para o mesmo objectivo. Ter algumas pessoas a tentar mudar a tomada de decisões e as políticas, a partir de dentro, através de exigências moderadas, e algumas pessoas a tentar mudar as normas do mundo, como um todo, através de exigências mais radicais, contribui para um movimento globalmente mais forte.
Valor de ficar vinculado
Alguns autores dos posts têm defendido que se não fizermos pressão para acabar agora com a pecuária industrial, através de argumentos morais (por oposição aos práticos), arriscamo-nos a ficar vinculados ao especismo, por muito tempo.
A Fai defendeu inicialmente esta posição, e depois actualizou-a com base nos comentários para uma estratégia de promoção da defesa moral, uma vez que o consumo de produtos animais é significativamente reduzido (<20% do consumo corrente). O BrainK remete para um artigo da Forbes referente ao livro “What We Owe the Future” que sugere que a IAG [Inteligência Artificial Geral] pode vincular-nos aos valores actuais, incluindo a forma como pensamos sobre os animais na pecuária industrial. E Omnizoid sugere que podemos ter rejeitado o abolicionismo sem ter considerado suficientemente os seus benefícios — incluindo a sua ênfase no progresso moral, que mais tarde poderia traduzir-se num maior cuidado com o sofrimento dos animais selvagens.
Apêndice — resumos individuais dos posts
Pode consultar aqui todos os resumos individuais dos posts sobre o bem-estar animal e que têm a melhor classificação, de Agosto de 2022 até ao final de Janeiro de 2023.
Publicado originalmente por Zoe Williams no EA Forum, a 8 de Fevereiro de 2023.
Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.
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